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sexta-feira, 5 de abril de 2013

14 - Dante - Mary Jane

Mais um dia como todos os outros, eu pensei desanimado.  Eu ainda estava chateado com o que aconteceu na noite anterior. Queria entender a razão de Jorge me ignorar daquela forma.
Fui para a cozinha procurar algo para comer. Não tenho ideia de que horas eram, mas devia passar do meio dia, pois a fome era intensa. Não encontrei nada, então me lembrei do que Jorge havia dito em frente à porta do quarto. Abri o armário e vi o dinheiro que ele tinha deixado.
Pensei em sair para comprar algo, mas a lembrança daquelas pessoas me olhando com piedade me fez desistir. Peguei um copo, enchi de água e tomei. Aquilo gelou meu estômago. Repeti a dose umas duas vezes e fui para a sala.
Joguei-me no sofá e desejei que Jorge chegasse logo com comida. Liguei a televisão, vi que falava algo sobre uma garota que morreu ontem no bosque perto de casa, então entendi o que eram os gritos que ouvi. Também vi que havia acontecido um acidente, e uma garota caiu no lago e quase se afogou, mas por acaso alguém estava lá perto e a salvou.  Nada é por acaso.


Ouvi passos do lado de fora, deduzi que era Jorge, o que me deixou feliz.
Ele abriu a porta e entrou. Jorge me olhou com cara de reprovação e mesmo sem entender perguntei:
– Trouxe algo para comer?
– Não.
Soltei um palavrão involuntariamente.
Jorge se aproximou de mim, me olhou com raiva e deu um tapa forte em meu rosto, que na mesma hora ardeu. Senti um calor subindo e tomando conta do meu corpo. Começaram a descer lágrimas.
– Moleque insolente, eu trabalho, me esforço para manter essa casa. Eu deixei dinheiro, você só tinha que sair para comprar comida, isso é mínimo que você deveria fazer. E dar uma ajeitada nessa casa talvez.
Eu sabia que ele tinha razão. Jorge trabalhava duro, saia muito cedo e não tinha hora para voltar. A casa estava de ponta cabeça, suja e abandonada, desde que nossos pais morreram, ela não foi limpa. Não me custaria mesmo arrumar.
Mesmo entendendo não consegui controlar a raiva, eu estufei o peito, e pensei em por pra fora tudo que eu estava sentindo sobre ele me ignorar, mas ao invés disso eu virei e sai. Bati a porta com tanta força que senti o tremor das paredes.
Fazia tempo que eu não saia para a rua.
Era noite, e as lagrimas em meus olhos deixavam as luzes dos postes ofuscadas. Eu estava andando depressa e meio cambaleando. Não sabia para onde eu iria, estava apenas seguindo meus instintos.
Eu havia me esquecido como o silencio das ruas noturnas de Desdém era ensurdecedor.
Desdém... Eu não podia parar de pensar em como eu a detestava. Eu não odiava apenas a cidade, eu me odiava também. Eu odiava o que tinha me tornado depois de tudo que aconteceu. A cidade sempre foi amaldiçoada, mas eu só me dei conta disso quando a desgraça me alcançou.
A melhor parte de mim morreu em Desdém, a minha inocência. Toda aquela felicidade e inquietude que uma criança pode ter eu perdi. Não tenho mais perspectivas. A cidade se alimenta dos sonhos e da esperança de todos e tira o bem mais valioso de cada um.
E culpa é dos próprios moradores, se eles não alimentassem essa cidade idiota, nada disso aconteceria. Enquanto pensava nisso, lágrimas de fogo caiam e eu andava cada vez mais rápido.
Percebi que um pouco longe havia um obstáculo em minha frente. Minha vista estava embaçada, sequei os olhos para tentar enxergar melhor.
Era uma pessoa. Senti um gelo na barriga, quanto tempo fazia que eu não via alguém diferente de Jorge?
Eu ia atravessar rua quando ela falou comigo. Uma voz doce, mas de garota com atitude.
– Está tudo bem com você? – ela disse tentando ver meu rosto.
Eu respondi que sim. Na verdade a minha vontade era de ignora-la ou responder grosseiramente, mas não pude. Quando eu levantei a cabeça para olha-la, me deparei com uma beleza contrastante. Apesar de estar escuro eu podia ver os reflexos alaranjados dos seus cabelos. Os olhos eram em um tom de verde intenso, e passavam uma ternura e delicadeza. Eu não conhecia muitas garotas, mas nunca havia visto uma tão linda quanto esta. 
– Meu nome é Lutrícia Sena e o seu?
– Dante Rodrigues – engoli seco, pois sabia que ela me reconheceria por causa do sobrenome.
Percebi a reação da garota, mas ela, diferente de todos, não foi inconveniente de comentar o assunto.
– Você não estuda? Nunca te vi na escola.
– Não, eu parei.
Por um tempo fiquei olhando para os olhos dela. Senti um pouco de vergonha pelo corte que eu havia feito no meu cabelo, passei a mão tentando ajeitar.
– Corte legal, - ela disse e sorriu. Eu não sabia o que dizer então retribui o sorriso.
– Não devia andar sozinha a noite Lutrícia, e muito menos ficar por ai conversando com estranhos. – disse o garoto que eu não conhecia. Eu não escutei ele chegar, provavelmente porque estava hipnotizado com a beleza da moça.
– Esse é Dante Rodrigues, acabamos de nos conhecer. – Lutrícia disse fazendo um gesto de apresentação. – Dante, esse é Gabriel, – acenei com a cabeça.
– Como eu estava dizendo, não é bom você ficar na rua à essas horas Lutricia, ainda mais depois de tudo que aconteceu. – Gabriel disse me ignorando, ele parecia abalado, mas isso não era motivo para me tratar daquela forma.
– Você tem razão, é melhor eu ir. – ela disse se dirigindo a mim com uma expressão séria. – Eu sou voluntária na Biblioteca Municipal, vou pra lá depois da aula, se você quiser conversar pode me encontrar lá.
Eu assenti.
– Eu te acompanho até em casa Lu. – ele falou com um tom de superioridade.
Lutrícia fez um gesto com a mão e se foi.
Me senti um pouco mal em deixar a garota ir embora com aquele cara. Havia algo nele que eu não engolia. Pode parecer loucura, mas eu senti ciúme. Apesar de não ter nada com Lutrícia, naquele momento toda a atenção dela estava voltada a mim.
Lutricia era realmente muito bonita,e ela me lembrou Mary Jane.
Eu nunca gostei muito de ler, mas Jorge adorava HQ’s. Lembro me de um dia, alguns anos atrás, Jorge me mostrou sua coleção de quadrinhos, entre eles um chamado “Homem Aranha”. Folhei as páginas da revista quando me deparei com uma linda garota, desenhada em traços sofisticados, com sombras e efeitos. Os cabelos eram ruivos e os olhos claros, rosto delicado e curvas tentadoras. Perguntei a Jorge quem era e ele respondeu com uma suspirada.
– Mary Jane. É linda não é?
– Sim, quero casar com ela – eu disse arregalando os olhos. Nós dois começamos a rir. Em geral não tínhamos muitos momentos como aquele, nós não compartilhávamos dos mesmos gostos.
Jorge sempre foi um ótimo exemplo, gostava de ler e estudar, nunca deu trabalho para meus pais. Pensando nisto, imagino como deve ter sido doloroso para ele abandonar os estudos, ele sempre sonhou em ir para a faculdade.
Eu sempre fui rebelde e mimado, meus pais gastavam muito tempo comigo, sempre eram chamados na escola por causa das minhas brigas e bagunças. Isso deixava o Jorge com ciúme, por mais que ele não admitisse.
Fisicamente nós nos parecemos muito, é impossível alguém falar que não somos irmãos. O formato dos nossos rostos é praticamente igual, parecem ter sidos desenhados com a régua, traços retos e agressivos. Os cabelos no mesmo tom, um castanho escuro, que puxamos do nosso pai.  O que nos diferenciava eram os olhos, os meus eram da minha mãe, e os do Jorge pareciam mais com os do papai.
Eu estava tão perdido em pensamentos que nem percebi onde estava, eu já tinha andado um tanto e chegado à entrada do bosque, resolvi entrar para passar o tempo já que não pretendia voltar para casa. .
Fui entrando apoiando-me nos troncos para não cair. Eu estava com medo, mas apesar de estar escuro, a luz da lua iluminava o contorno das árvores e caminhos, o que me confortava um pouco.
Depois de caminhar certo tempo cheguei a um lugar que conhecia bem, era uma área bem mais aberta, onde o papai sempre nos levava para brincar quando crianças. Logo esbarrei em alguma coisa. Estava bem à minha frente e bateu na minha barriga. Passei as mãos e logo reconheci. Era uma balança feita de pneu, certamente a mesma que costumávamos balançar. Lembro perfeitamente da cena, eu sentado na balança, ainda era bem pequeno, meus pés nem alcançavam o chão, papai me empurrando e Jorge sentado no chão. Eu me divertia muito, repetia incansavelmente:
– Mais forte papai, mais forte!
E eu fingia que estava voando, sentia-me um super herói. Jorge não parecia se divertir muito, ele ficava jogando pedrinhas no lago à sua frente. O lago... Aquele lago azul claro, que era reflexo do céu nas minhas lembranças, nem parecia o mesmo de agora. Tão negro e sombrio, com exceção da luz que surgia bem no centro dele. A lua refletia no lago, ela estava perfeitamente redonda, e dava a impressão de que estava encostando na água e derretendo. 
Me aproximei um pouco e admirei a imagem, que por alguns instantes me hipnotizou.
Ouvi alguns barulhos vindo do meio das árvores, me assustei e quase desequilibrei. Foi por pouco, tão pouco que até ouvi o barulho de algumas pedrinhas caindo, certamente era uma daquelas que Jorge costumava atirar ali.
Lembrei-me do que havia acontecido no bosque no dia anterior, e corri para me esconder. Escolhi uma árvore bem larga, uma das mais próximas dali. Ouvi o barulho de folhas amassando se aproximar, e do meio das árvores saiu Jorge. Ele caminhou até a margem do lago, ficou um tempo olhando a luz da lua, assim como eu tinha feito antes e se sentou. Onde eu estava escondido, dava para vê-lo exatamente de perfil. Os contornos de seu rosto estavam iluminados, me esforcei um pouco para ter certeza, mas ele parecia estar chorando. Ele pegou algumas pedras e começou a atirar. Algumas quase que sem força alguma, outras ele enchia o peito e parecia se esforçar para atirar o mais longe possível. 
Eu não sabia o que fazer, não queria falar com ele naquele momento, até porque comecei a me sentir culpado por termos discutido. Mas também eu não podia ir embora, pois Jorge escutaria e viria atrás de mim. A única opção era esperar até que ele fosse, e então ir embora logo depois, assim quando eu chegasse em casa ele já estaria dormindo e eu não precisaria enfrentá-lo.
Depois de um tempo a posição foi ficando cada vez mais desconfortável, e eu estava me esforçando para não me mexer muito. Jorge já tinha parado de jogar pedras, agora ele estava sentado, abraçando as pernas e com a cabeça abaixada. Logo depois ele deitou no chão com os braços atrás da cabeça e ficou imóvel. Ele dormiu.
Eu não contava com isso, mas já que ele havia adormecido, resolvi ir embora. Fui andando com todo o cuidado para não fazer barulho e acordá-lo.

Quando abri a porta tive uma surpresa, a casa estava toda revirada, móveis tombados, coisas espalhadas e quebradas. Atentei-me ao vaso de louça que ficava encima da mesinha perto da televisão, estava estilhaçado, sem possibilidade mínima de recuperação. Era o vaso favorito da mamãe, ele abrigava umas florzinhas, eu não sei o nome, mas eram pequenas e rosas, e cresciam bem próximas ao caule. Agora elas estavam esparramadas junto a terra escura no chão.
O que havia acontecido? Será que Jorge tinha perdido o controle quando sai, e fez toda aquela bagunça, ou será que outra pessoa havia entrado em casa, já que a porta estava destrancada.

Eu não iria arrumar tudo aquilo naquela hora, então fui tomar um banho quente antes de dormir. Meu corpo estava dolorido por ter ficado tanto tempo na mesma posição, e eu estava com a cabeça a mil. Aquela discussão com Jorge, a garota que eu havia conhecido, as lembranças... Tudo  aquilo estava borbulhando na minha cabeça. Entrei embaixo do chuveiro, liguei a água quente e deixei escorrer. Quando me senti relaxado, sai do banho, subi para meu quarto e me joguei em minha cama.


Por: Luna Gabriella

segunda-feira, 1 de abril de 2013

12 - Vitória - Lembranças


Acordei por volta das 03h40min da manhã (não que conseguisse dormir muito mais que isso) agarrada ao travesseiro que estava encharcado de lágrimas. E logo fiquei com raiva, achei que tinha me livrado dessa maldição, desde que tinha chegado aqui nem uma noite sequer esse maldito pesadelo tinha vindo, por que justo hoje? Era sempre o mesmo sonho, na verdade era sempre a mesma lembrança. Lembranças nunca morrem essa era a verdade e a maldita lembrança tinham voltado para me atormentar justo no meu primeiro dia de aula. Eu vinha tentando ignorar tudo durante todos os cinco meses que seguiram o “problema” e não cheguei nem perto de um bom resultado, mas não queria confrontar isso, ainda não estava pronta, preferia fingir que estava bem.
O sol ainda não havia nascido e meu quarto se encontrava na escuridão total, o cheiro do meu incenso de cravo ainda pelo ar, isso me dava uma espécie de conforto estranho. O escuro me escondia dos meus medos.
Georgia e Julie ainda deviam estar dormindo no quarto delas. As novas filhas de Tia Claudia. Julie, a menor, era uma fofa e Georgia, a mais velha, apesar de muito bonita parecia meio desolada. Só fiquei sabendo delas no dia anterior, depois da nossa seção de treinos, umas três horas antes de elas chegarem. A casa tinha espaço para mais umas cinco pessoas (sem contar com Titia, comigo e com Alex, o filho dela que estava na faculdade) viverem confortavelmente, e Claudia tinha dinheiro para adotar mais cinco e cria-los muito bem. Titia me contou algo sobre um incêndio em um ônibus, muitas mortes, crianças no ônibus, o pai das meninas morreu e ela era amiga dele. Tudo isso aconteceu no dia que me afoguei e titia resolveu que adotaria as duas e, bom, foi isso que fez, mas demorou uma semana até que tudo estivesse em seus devidos lugares e as meninas pudessem vir para cá.
Tia Claudia tinha ido buscar elas no orfanato. Quando chegaram estava tocando piano na sala de música e cantando baixo, por isso não notei a presença delas. Foi apenas quando Julie veio para perto de mim que notei que elas haviam chegado. Parei de tocar, dei as boas vindas, ajudei-as a colocar as malas no quarto e descemos para comer. Eu tinha preparado bolo de chocolate, pão de queijo e café. Acho que Julie adorou as comidas, pois comeu bem, já Georgia estava bem mais calada e comia pouco, definitivamente podíamos chegar a ser amigas um dia. Ela era realmente muito bonita, tinha cabelos longos e negros e olhos castanhos, era um pouco mais baixa que eu e Julie (apesar do cabelo castanho claro) parecia um pouco com ela. Depois Georgia subiu para arrumar suas coisas, titia começou a ler para Julie e eu subi para meu quarto, era cedo ainda, mas eu queria organizar umas coisas, ler e dormir depois.
...
Não se passaram nem 40min e desisto de tentar qualquer meditação das que conheço. Argh. Meditar já era complicado e não ajudava em nada se você não conseguia aquietar a sua maldita mente tagarela. Eu tentava ignorar as lembranças que sempre se seguiam depois do pesadelo, mas você não pode simplesmente meditar com a mente cheia de coisas que você só queria varrer para debaixo do tapete. Odiava lembrar daquilo, o motivo para eu estar em Desdém nesse exato momento.
Subi rapidamente para meu quarto e estando lá passei direto para o banheiro, acendi um dos meus incensos de cravo e fui para o box. Lavei e hidratei meus longos cabelos ondulados e fiz o mesmo com minha pele, quando acabei meu banho enrolei meus cabelos e meu corpo em toalhas que estavam lá.
Quando sai do Box e me olhei no espelho acabo tendo uma surpresa, estou bonita. Não que eu fosse feia, sabia que não era, mas nunca me achei bonita o suficiente, ter uma mãe modelo em casa não ajudou muito, ser comparada o tempo todo com ela, a obrigação de ser linda e gloriosa como ela, essas coisas eram muita pressão e não fazem bem a autoestima de ninguém. Mas o fato é que no meu primeiro dia de aula eu me senti bonita. Meus grandes olhos amarelos, apesar do pesadelo, estavam brilhantes, minha pele estava bonita, apesar de ter uma pele muito clara eu estava mais corada, algumas finas mechas de meu cabelo caiam em meu rosto. Afinal Desdém está conseguindo me deixar melhor, não totalmente é claro, mas melhor. E isso me lembrava de Catarina e Ygor, tinha uma ideia do que diriam se me vissem agora. Tinha certeza que iam ficar muito contentes, pois há muito tempo eu não ia bem, apesar de tentar esconder os que me conheciam sabiam como eu estava por dentro. A dor tinha me mudado, acho que ela muda a todos.
Estava com muita saudade dos meus amigos. Lembro quando íamos à escola, sempre juntos. Ygor passava para me buscar no carro dele e depois íamos pegar Cat.
Catarina era praticamente uma rainha da escola, com seus longos cabelos cacheados cor de avelã e mechas cor de cobre, seu corpo perfeito (e como não? Ela praticamente já nasceu fazendo ginástica olímpica), sua pele dourada e seus olhos verdes esmeralda, eu ainda não sei como viramos amigas, ela sempre foi popular demais, linda demais. Quando tinha nove anos, eu era um dos seres mais desengonçados da face da terra e ela já era linda e segura de tudo, nos conhecemos graças as nossas mães, que são melhores amigas, porém a família de Cat morava na Califórnia e tinham acabado de se mudar de volta para o Brasil, logo na primeira visita a minha casa nós nos tornamos amigas. Ela sempre escolhia minha roupa quando saiamos e me defendia na escola quando falavam de mim, estava sempre lá, sempre que eu precisava e eu fazia o mesmo por ela, Cat era incrível, uma amiga leal e sincera. Ela meio que me introduziu no mundo dela e de certa forma eu gostei das atenções em mim, sempre gostei de ter amigos a minha volta, gosto de fazer as pessoas felizes e gostei da vida que Cat me proporcionou, pelo menos antes dele aparecer e estragar tudo.
Ygor era popular também, não nas mesmas proporções que Cat, mas ainda assim popular, era um dos meninos mais lindos que eu conhecia, deveria ter em torno de 1,87m e tinha um lindo corpo atlético (resultado de anos de futebol e muay thai), seus cabelos eram cor de chocolate sedosos e lisos que faziam um contraste perfeito com a pele clara, tinha olhos acinzentados que eram incrivelmente brilhantes e os beijos dele eram quentes e doces assim como ele. Ele foi uma surpresa enorme para mim, diferente do que eu imaginava dele (um imbecil arrogante) ele se revelou um dos seres mais gentis e compreensivos da terra.  Viramos amigos quase instantaneamente depois de conversarmos um pouco, era como se nos conhecêssemos há anos, foi meio mágico. Depois de um tempo engatamos uma amizade colorida e era incrível a sincronia que tínhamos, não era nada forçado ou ciumento, não tinha cobranças nós só nos beijávamos quando era conveniente, mas éramos muito mais amigos que qualquer outra coisa. É claro que depois do acontecido nós paramos e mesmo depois que eu resolvi que não ia desistir da minha vida por aqueles momentos de sofrimento, não voltamos mais, não por falta de vontade, era mais por falta de oportunidades.
Enfim saio do banheiro e escolho a roupa para meu primeiro dia de aula: uma calça preta justa, uma regata preta e por cima dela um suéter de tricô rasgadinho cor de vinho, uma sapatilha preta e minha tiara de pérolas falsas negras, ponho meus anéis e algumas pulseiras, me olhei no espelho e quase ri, tinha ficado muito bonito, mas preto não era minha cor favorita, isso sem contar que não sou a maior fã das calças. Fiquei algum tempo decidindo se usaria ou não maquiagem, por fim decidi usar lápis de olho marrom (que segundo Cat realçava meu olhos amarelos), rímel, um blush pêssego só para não ficar branca demais e um gloss incolor. Antes de sair do quarto peguei minha bolsa de couro sintético marrom, meus cadernos na cômoda e meus óculos de sol estilo John Lennon.
Desci com meu gato Helly no colo, e encontrei titia fazendo o café. Olhei para o relógio, ainda eram 05h50min. Ela se virou assim que cheguei ao último degrau e franziu a testa.
–Vai ao velório de quem? ­– falou isso depois de se virar para coar o café e deu uma risadinha.
–Oh! Você não ficou sabendo?! – falei com um espanto fingido na voz – Estou indo no velório da minha vida social. – ela riu e pôs a garrafa de café na mesa. Eu realmente não achava isso, não tanto, até que eu tinha gostado da calma e tranquilidade de Desdém, mas minha vida não estava aqui e nunca estaria.
–Não fale assim. Você está subestimando demais Desdém. Ainda vai se surpreender. ­– ela disse séria olhando nos meus olhos e depois sorriu, eu sorri também e dei língua para ela.
–Vamos ver.
...
A escola era relativamente grande e bem velha, até que podia ter sido bonita um dia, mas os maus tratos que o clima mais os descuidos produziram foram desastrosos para a conservação da mesma. Era feita de tijolos bege(?) antigos, tinha um telhado, que deve ter sido cinza um dia, praticamente todo coberto por folhas e musgo e tinha uma espécie de torre no meio que se elevava acima do resto da escola, na qual se encontrava um relógio.
Cheguei à escola muito cedo, quase ninguém havia chegado ainda. Fui à secretaria pegar meu horário e comprar meu uniforme. Eu estava no 3° ano A e o uniforme era muito sem graça, uma blusa azul escuro e branco, com o símbolo tosco da escola, pelo menos a parte de baixo do traje era opcional, só tinha que ser algo em um tom escuro. Dirigi-me a minha sala e sentei no fundo, hoje eu queria observar meus novos colegas de classe.
Logo a sala começou a encher. Via as pessoas entrando na sala e começando a conversar, a maioria olhava para mim, mas tentava fingir que não estava olhando. Havia um garoto de cabelos negros próximo a mim, que parecia não estar na sala, seus pensamentos vagavam para um local que eu desconhecia, era um garoto bonito, mas triste; uma loira bonita e sozinha num canto, umas menininhas engraçadas que estavam tentando esconder que falavam sobre mim, uns garotos que me olhavam de um jeito que odiava e o mesmo tipo de gente que se encontra nas escolas em geral. Infelizmente descobri que Georgia não estudava comigo, e que em nas sextas ela saia mais cedo que eu, o que significa que terei de ir embora sozinha.
O sinal finalmente bateu e o professor Augusto entrou na sala. A primeira aula era literatura. Eu imaginava que a matéria da escola estaria atrasada em relação a minha outra escola, mas não tanto. Íamos falar de Romantismo, eu passei a odiar tudo que era romântico desde que tudo aconteceu. Ele escreveu no quadro duas frases de Shakespeare e perguntou de quem eram.·.
“Tarde demais o conheci, por fim; cedo demais, sem conhecê-lo, amei-o.”
“Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor.”
Eu levantei a mão para responder, mas um menino da frente respondeu antes.
–Shakespeare, professor. –ele respondeu rápido e sem levantar a mão, só pude pensar em como ele era mal educado. Não o tinha notado antes, talvez tivesse chegado depois.
–Muito bem, está correto. –disse o professor com um pequeno sorriso animado nos lábios. –Agora, alguém aqui sabe me dizer que conceitos a primeira frase emprega, ou quer dar sua opinião a cerca desse glorioso sentimento que é o amor? – ele falou com empolgação, provavelmente por alguém ter respondido a primeira pergunta corretamente. Eu torci a cara para a última pergunta. Porém essa ninguém respondeu, ele ia voltar a falar, então eu levantei a mão, resolvi dar minha opinião. Ele fez um gesto com as mãos indicando que eu poderia falar e quase toda a turma se virou para mim.
–Respondendo a segunda pergunta, eu acho que foi a loucura, professor, o que mais motivaria alguém a falar assim? – minha voz saiu alta e clara, porém mais áspera do que eu esperava.
–Eu já acho professor que quem falou esta frase estava vivenciando o mais puro e verdadeiro amor. – o garoto mal educado da frente rebateu com uma voz que parecia chocada e meio histérica ao mesmo tempo. Levei alguns segundos para poder pensar sobre o assunto, fazia tempo que eu não debatia com alguém, na minha antiga escola eu costumava fazer isso com os professores, era adorável, sempre conversei muito com eles, mas nessa escola era diferente, o garoto estava realmente discutindo comigo. O garoto, pelo que eu podia ver da minha carteira, estava usando all star, uma camisa azul e um jeans com aparência meio gasta, ele tinha os cabelos pretos e meio bagunçados e era alvo. Se ele queria discutir comigo, era o que iria ter.
–Na primeira frase, por exemplo, fica explicito que eles mal se conheciam. Como pode o ''amor'' existir dessa forma? Entre dois seres que mal se conhecem. O amor por tanto não motivou nada. Talvez o desejo sim. – eu praticamente cuspi as palavras, esse garoto não sabia nada.
–O amor não é um sentimento racional, ele acontece de forma que poucos sabem ou sentiram. –  o garoto estava se estressando, me deu vontade de rir, a situação estava ficando divertida.
–Oh, que coisinha doce você é. –falei com ironia, agora eu queria irritar ele. – Sabe professor, li num livro uma vez que o "amor" é uma coisa totalmente psicológica. Você ama o que te faz bem. Você ama o que dá prazer em você. Você nunca pensa no outro e sim nas coisas que ele te proporciona. E você consegue se provocar o amor... Tipo, você consegue se obrigar a amar alguém. A conclusão, docinho, é que o amor é algo muito mais racional do que você acha. – falei tudo isso sorrindo e fitando as costas dele eu tive de dar uma risadinha baixa, o garoto cerrou os punhos.
–Se não compreende o amor, não pode ser considerada uma pessoa normal, pois o amor é o sentimento mais redentor que existe em todo o universo e o mais belo também. Ele modela as pessoas para que elas descubram tanto a si mesmas quanto aquele (a) que o cativa. Se você não sabe disso, não precisava ter nem se dado ao trabalho de argumentar. – ele falou e respirou fundo depois.
–Oh! Romeu, Romeu! Mas porque és tu Romeu? – depois de citar esse trecho de Romeu e Julieta dei uma pequena risada carregada de ironia. – Eu sei o que estou falando. É por isso que estou falando. Realmente o amor modela as pessoas, elas se tornam obsessivas, ciumentas, controladoras e – Droga, minha voz falhou um pouco. – violentas. É isso que o amor é... Um sentimento destrutivo. – o garoto não respondeu. Será que ele era tão lento assim? Decidi que iria ajuda-lo, então completei minha frase – Tenho pena de pessoas que acham que o amor muda alguém para melhor. São pessoas iludidas, que provavelmente vivem em sofrimento. Esperando o "amor" aparecer.
–Sentimento destrutivo? Pessoas iludidas? – Ele riu sem humor algum. – Você não sabe mesmo do que está falando. O amor tem realmente a capacidade de mudar pessoas para melhor, sei disso mais do que imagina. Você não sabe do que está falando.
– Parece que quem não sabe algo aqui é você... Você já ''amou'' alguém, querido? Se sim sabe do que eu estou falando. Não acredite nesses livros românticos bobos. Eles são cópias da "lindíssima" idealização do amor. – Esperei que ele respondesse, tive de ajuda-lo de novo, por que a resposta não veio - Só para constar que eu não estou falando do amor de pais por um filho, ou do amor de irmãos. Estou falando do amor entre duas pessoas, do desejo carnal que há entre os dois e que as pessoas insistem em chamar de "amor".
–O amor é mais que um simples desejo carnal, o amor é se preocupar um com o outro, ficar ao lado da pessoa em qualquer momento que necessitar, compartilhar momentos belos e indescritíveis juntos e sensações que te deixam sem ar, que fazem você ignorar qualquer coisa em volta e só saborear aquilo. Isso é o amor, Srta. Sei-De-Tudo-Sobre-Isso. ­–eu sorri com a resposta dele, estava tudo ficando tão divertido.
–Oh, mas Dr. Do Amor, só posso pensar então duas coisas. A primeira que o senhor é muito otimista ou que o senhor nunca "amou"... Só está repetindo o que leu. Deixe-me presenteá-lo com um pouco de filosofia de vida: O amor é um jogo. Um jogo de interesse e poder. Poder sobre o outro, como tudo na vida. – eu colocava minha voz em tom de falsete e ok, eu estava pegando pesado, mas o garoto estava pedindo por isso praticamente.
–Você que não sabe de nada, já que pensas que tudo relacionado ao amor é um simples jogo de interesse. Amar e ser amado são desejos de todo o ser humano com algum senso de romantismo. Que, pelo visto, você não tem em nenhuma célula de seu corpo. – ele realmente estava com raiva, eu tive de me controlar para não rir e ficar com a cara séria.
–Romantismo?! Estou começando a achar que você nem mesmo leu um livro sobre amor! Já acabou de ler algum livro romântico de Shakespeare? Eles não acabam bem. São tragédias. Se o amor é tão bom assim como o senhor está discursando por que nenhum acaba bem? ­– joguei as perguntas para ele, minha criatividade estava acabando, principalmente por que ele não mudava muito os argumentos. Ele murmurou algo que não consegui entender. Tudo bem, eu iria ajuda-lo de novo. – O senhor é muito romântico, tenho de admitir. Mas isso não muda o fato de que o amor não existe. Imagino que leia bastante os livros do Nicholas Sparks, já que você é tããão romântico. – ele passou as mãos pelos cabelos, mas não me respondeu. Eu não ia deixar ele me ignorar dessa forma, na frente daqueles rostos chocados com a discussão. Então o complemento perfeito de meu discurso veio na minha cabeça e eu o disse sorrindo. –O que te motiva a acreditar no amor?  Ou será que só viu os filmes da Disney e se convenceu que o amor existe?
–É a minha vida. E são minhas crenças. Você não mudará nada. – Ele parou e pensei que tinha acabado, mas quando ia começar a falar ele completou. – Você quer que eu fale então eu vou falar: meu pai foi um idiota cretino por ter deixado minha mãe sozinha pra me criar e cresci escutando que o amor não prestava para nada além de destruir uma pessoa. Mas eu penso diferente, eu acharei o meu amor e mostrarei que ele existe sim e que ninguém pode lutar quando ele aparece. – enquanto ele falava eu cansei da discussão boba, ele não ia mudar de opinião, e os argumentos dele eram muito pessoais e os meus muito espinhosos e baseados em livros de psicologia.
–Enfim, professor essa é minha opinião. –dei um sorriso a ele que também estava tão chocado quanto os outros.
­–Você não pode provar que o amor não existe! – o garoto falou e se virou para mim pela primeira vez. Não pude falar nada, eu fiquei surpresa, tanto quanto ele estava.
Foi então que vi seus olhos. Meu coração acelerou instantaneamente e provavelmente eu corei, mas mantive meu rosto com o ar de superioridade que lhe era característico. Os olhos dele estavam surpresos apesar do resto do rosto não estar. Eu conhecia aqueles olhos azuis, eu os tinha desenhado no meu caderno, aqueles olhos tinham aparecido em um sonho meu. Eu fiquei sem reação pela primeira vez em toda a nossa conversa, ele parecia do mesmo jeito. Eu não reconhecia o resto do rosto, mas aqueles olhos sim. Foi então que veio na minha mente a lembrança, aqueles olhos, foram eles que me salvaram, foram eles que me tiraram do lago. Minha mente, apesar de perturbada formou uma frase que saiu para responder a última sentença que ele proferiu. Eu era orgulhosa o suficiente para não me conter.
–Você também não! – dessa vez minha voz saiu meio falhada e meio acusativa, mas alta o suficiente para que ele escutasse.
Olhamo-nos por mais alguns segundos e depois ele se virou para frente.
O professor continuou a aula normalmente, provavelmente preferiu fingir que nada havia acontecido. Sabia que muitos dos meus novos colegas de classe ainda me olhavam, com toda certeza ainda estavam chocados com a novata que fez uma mini briga com o coleguinha querido deles, mas eu não me importava, mal senti os olhares. Estava preocupada em tentar organizar a bagunça que minha mente formou, maldita consciência, mas eu já sabia o que fazer.


Por:  Letícia Cavalcante

sábado, 23 de março de 2013

11 - Lutrícia - Vultos

Não acredito! Era tudo um pesadelo. A morte de Raquel, o lago, a escola, a minha vida. Tudo um pesadelo. Como estou feliz em dizer que isso tudo acabou. Ao menos era o que eu queria lhes contar, mas a realidade, infelizmente, não é essa.
Estou sozinha, e não sei como enfrentar. Isso resume a minha vida. Parece cocaína, mas é só tristeza. Isso resume o meu momento.Cheguei a casa em lágrimas, ainda bem que minha avó não estava lá. Bendita missa. Subi as escadas correndo e soluçando. Abri a porta de meu quarto, a casa estava tão quieta.
Entrei, liguei o computador, coloquei uma play list para tocar e deitei na cama. As imagens de Raquel ensanguentada vinham-me a mente toda hora. Eu não gostava dela, mas a vi morrer.
Imagine o que Gabriel estava sentindo, eles eram muito amigos. Estavam sempre muito perto um do outro.
Estava eu já quase pegando no sono quando ouvi um barulho lá de fora - bruuuumm. Parecia barulho de coisas explodindo. Após o barulho ouvi gritos desesperados e choros.
Peguei meu roupão lilás, coloquei-o sobre meus braços e calcei meu chinelo de dedo. Desci as escadas. Andei um pouco até chegar à praça. Eu estava muito preocupada e com receios.
Muita coisa acontecendo a Desdém muito rapidamente. Morte, afogamento da menina nova, e agora esse barulho.
O que pode ser isso?
Quando cheguei ao meio da praça pude ver o que era.
Vi um vulto, do tamanho de um ônibus, em chamas. Cheguei mais perto.
O vulto é um ônibus. E o fogo passou, ou melhor, se transformou. Transformou-se em explosão. Ou melhor, antes do ônibus explodir, o que explodiu foi uma viatura.
Foi quando eu entendi. A viatura era do chefe de policia. Estava em frente a casa dele. E o ônibus, era do acampamento infantil da cidade.
Estavam todos em volta chorando, acuados ou tristes.
Vi de relance Bianca e Gabriel, não juntos, mas os vi. Bianca indo pra sua casa e Gabriel sendo preso. Acho que por causa do ônibus, sua irmã, Gabriela, fazia parte do acampamento.
Foi quando, sem olhar pra trás, fui embora. Não queria ser mais testemunha de mais nenhuma tragédia.
Subi aquelas escadas de madeira escura como se fosse para meu próprio enterro. Deitei em minha cama e dormi. Acordo assustada. Meu despertador berrando – pipipipi. Eu estava atrasada pra escola. Primeira vez que isso acontecia desde sempre.
Arrumei-me correndo. Troquei de roupa, penteei-me, calcei meus tênis, peguei o material e desci as escadas.
Fui, em passos rápidos, em direção da escola. Em passos normais, chegaria em 15 minutos. Mas, como estava com pressa, com sorte, chegaria em 7 minutos. Passei pelo centro comercial de Desdém, as pessoas que estavam abrindo suas lojas me olharam assustadas. Sempre era eu quem chegava primeiro.
Cheguei à escola, mas perdi a primeira aula, história, afinal, já eram 7:30. Eu tinha que esperar a próxima aula.
Eu estava sentada no banco perto do portão da escola. Lia um livro de ficção, J.K Rowling, enquanto esperava.
O inspetor de alunos se surpreendeu a me ver e não ver Gabriel. Mas deixou-me passar. Entrei na segunda aula, infelizmente, eram duas de matemática, odeio matemática.
A Senhora Eliane Costa me odiava. Sempre que possível, pegava no meu pé.
E eu ainda sentava na carteira mais próxima da mesa dos professores, o que piorava tudo.
Eu sempre faço de tudo pra que não haja um pedaçinho do meu rabo pra Senhora Costa pisar.
Passaram as aulas, eu na minha como sempre, agora era intervalo. Eu não estava com fome, como sempre no horário do intervalo. Então, peguei meus fones e sentei-me à mesa da lanchonete que eu sempre sentava, no pátio.
Gabriel não estava lá. Nem ninguém ligado ao acampamento. Isso me assusta.
Fomos logo liberados, a professora de biologia e nem o de química foram. Nem passei em casa, fui direto à biblioteca, queria partir desse mundo nojento, queria ir pra um universo paralelo que eu amo: livros.
Nesse tempo, não conversei com ninguém, não encontrei ninguém, só fiquei lá, dando baixa em livros, emprestando livros, guardando livros.
Demorei um pouco mais de propósito, queria chegar à casa de noite.
Quando estava chegando a casa, vi um garoto. Devia ter uns 17, 18 anos. Ele não tava bem, eu tinha que ajudar.
Ele era bonito. Tinha o cabelo meio desarrumado e uma camisa preta e estava em lágrimas, com feição de ódio ao rosto. Chamou-me a atenção. Isso nunca ocorrerá antes.
-Está tudo bem com você?-precipitei ao perguntar
-Sim, estou bem, responde o garoto. -Meu nome é Lutrícia Sena. E o seu?-resolvo perguntar, meio curiosa. -Dante. Dante Rodrigues. Foi quando me lembrei da historia do garoto.

Por: Gabriel Lopes

sexta-feira, 15 de março de 2013

10 - Bianca - Cores

   – Não ! Me solte !
   – Você não tem pra onde correr !
   – Socorro!!!
   – Cale a boca, sua vadia!
   – Nããããão!!!!
                                                                                        … 
   Acordei assustada. Olhei em volta e percebi que estava confortavelmente em meu quarto, não na floresta como segundos atrás.
   Meu travesseiro estava molhado. Levei a mão à testa, estava encharcada de suor, mas estranhamente gélida. Esfreguei-a, minha cabeça doía.
   Eu estava frente à entrada da floresta, descalça. Ouvi galhos sendo partidos sob fortes passos. Sabia que devia voltar para casa. Não só pelo perigo que a floresta oferecia, mas também pelo horário. Já se passava das onze horas da noite, e a essa hora, os poucos marginais de Desdém faziam a festa pelas ruas da cidade.
   Os passos se aproximavam cada vez mais da abertura, mas eu não recuei, ao contrário, respirei fundo e adentrei na mata.
   Tudo vinha como um borrão. Esforcei-me para lembrar do sonho por completo, mas nada vinha, então desisti. Fiz minha prece matinal e desci. O andar principal estava silencioso, meu pai já havia saído para trabalhar. Cada pedacinho da minha casa tinha o toque sensível de minha mãe. Cada cortina, cada tela pendurada nas paredes, cada flor pintada à mão na escadaria.
   Meu olhos arderam de acordo que a imagem do rosto da minha mãe foi se formando em minha memória. Para afastar a mágoa que senti chegando, corri para a estante e peguei o primeiro CD que alcancei, joguei-o no som e dei play. Assim que ouvi ‘It’s Britney, bitch!’ me lancei na cozinha e comecei a preparar meu café da manhã no ritmo da música. Em certo momento, um antigo copo de uma das coleções de minha mãe escorregou entre meus dedos molhados e partiu-se em mil pedacinhos brancos de porcelanato.
   – Merda! – berrei, odiando a mim mesma por ser tão desastrada em alguns momentos – Olha só que “cagada” eu fiz! Se a minha mãe estivesse aqui eu já t…. – calei-me.
   “Se mamãe estivesse aqui aqui eu não seria órfã. Se mamãe estivesse aqui eu não estaria fazendo mseu café da manhã.”, pensei.
   “Esquece, Bianca. O que você pode fazer é catar tudo isso antes que seu pai chegue. E caladinha”
   Agachei-me para recolher os cacos maiores, a fim de deixar apenas os minúsculos para serem varridos. Ao abaixar, percebi que meus pés estavam sujos. Achei estranho, mas manti minha atenção voltada à não cortar meus dedos no vidro.
   Após tomar meu café, fui para a escola, e mais uma vez Anne não compareceu, o que me deixou preocupada e decidi passar em sua casa no dia seguinte para ver se estava tudo bem.
   As aulas se arrastaram com o tédio habitual. Como sento na última cadeira, no cantinho da última janela da sala, tenho o luxo de simplesmente ignorar tudo o que os professores falam. Hoje deram avisos sobre nos mantermos seguros, não andarmos sozinhos, não saírmos de casa depois que anoitecer e (me mate!) não frequentarmos o bosque.
   – Ah, por favor ! Vocês não acham que estão sendo patéticos demais? Mesmo pra vocês, que são normalmente patéticos? – perguntei, inconformada.
   A Sra. Monteiro, professora de geografia não é conhecida por sua simpatia ou afeição por nós, alunos. Seus olhos, assim como de todos os outros presentes na sala, viraram-se para mim, frios e curiosos.
   – Como é, senhorita Bianca ? – Ela ajeitou seus óculos-fundo-de garrafas e crispou os lábios.
   – É que eu penso ser exagero todas estas coisas. Vocês estão fazendo tempestade num copo d’água – respondi, com um tom menos arrogante.
   A Sra. Monteiro tossiu, ajeitou os óculos de novo e sorriu com doçura.
   – Minha querida, eu entendo você questionar as regras, porque também já fui adolescente e sei como é divertido quebrar as regras. Mas, acima de todos, a senhorita devia se importar com tais normas – ela veio caminhando em minha direção, sempre um sorriso no rosto – A sua mãe, por exemplo...
   – Não-fala-da-minha-mãe – sibilei.
   Ela sorriu, com falsa pena e continuou o seu discurso.
   – Sua mãe foi BRUTALMENTE assassinada, mas isso não pode te afetar eternamente. A sua mãe morreu porque el...
   – Não fala da minha mãe ! – falei, em alto e ótimo som, para ninguém falar que eu não avisei previamente.
   – ... fez coisas que infelizmente n... – a mesa bateu com força em sua perna, fazendo-a bambear – Como você se atreve a agredir uma professora ?
   – Eu mandei NÃO FALAR DA MINHA MÃE ! – gritei, descontrolada. De relance, vi que todos me olhavam com medo. – Não fale da minha mãe! Não fale da minha mãe!
   – Eu só disse o que todos dizem. Não é culpa minha se a s...
   – NÃO FALA DA MINHA MÃE! – gritei mais alto ainda, eu não queria ouvir suas palavras.
   Me levantei e saí da sala, a cara inchada, o sangue fervendo, o corpo tomado pela ira.
   Não dei satisfação a nenhum dos outros professores, o portão da escola estava aberto, coisa rara, já que nos mantêm presos ali como criminosos.
   Fugi para as colinas, para as árvores silenciosas. Logo, o ambiente mudo me acolheu.
   Encostei numa árvore e chorei, me acabei de chorar.
   Chamei pela minha mãe, queria ela ali comigo. Mas aquilo nunca seria possível. Pois ela está morta, e eu realmente precisa superar aquilo. Mas era difícil, ao extremo.
   Após um tempo, deitei na grama e fiquei parada, olhando o céu, as nuvens. Fechei meus olhos, sentindo até mesmo a vibração do silêncio na pele.
                                                                                    …
   – Onde você está? – perguntei – Eu não quero te machucar.
   Os galhos se partiam mais a frente e segui o som. O ar era leve mas a noite estava tão fira que atravessava o fino tecido de minha camisola. Uma música começou ao tocar adiante, era uma balada toda feita ao piano, eu a conhecia mas não lembrava seu nome.
   – Espere!
   Uma mão me agarrou pelos braços e jogou-me no chão. Meus olhos provavelmente saltaram das órbitas, tamanho o meu medo.
   Havia um palhaço em minha frente. Mas não um palhaço feliz, um apalhaço qualuqer, brincalhão. Era um palhaço frio, sem sorriso e sem olhar.
   Seu rosto era pálido e no lugar dos olhos haviam dois buracos negros.
   – Sorria, doçura!
   Ele levantou uma faca de um tamanho descomunal, na altura do meu pescoço e veio sobre mim.
   – Não! Eu sei quem você é! – Eu não sabia quem era, mas o sabia ao mesmo tempo, o rosto me era me era visível, mas identificável. Eram memórias em um sonho.
                                                                                   …
   Abri os olhos, ofegante como na manhã passada. De novo o mesmo sonho. Ou seria uma lembrança de um sonho? Não sabia de mais nada, que dia era, ou mesmo se era dia, tarde ou noite. O céu estava escuro, negro como a morte, mas para mim, não importava.
   A unica certeza era de que a grama me incomodava, e eu queria minha cama.
   No caminho de volta pra casa, vi uma multidão de pessoas, pareciam todos os habitantes da cidade reunidos numa especie de comício, perto da casa do chefe de polícia. Cheguei perto e me assombrei com o que vi.
   O ônibus do Acampamento da cidade havia sido incendiado, acho. Não quis perguntar ninguém, detestava caçar assunto com aquela gente.
   A cena me trouxe visões terríveis e chorei. De pena daqueles pais que também estava ali, chorando, lamentando diante os escombros de seus filhos. O ônibus ardia em chamas, o céu brilhava, e o que antes eu achei ser foguetes, eram um visível sinal de desolação.
   Mais lembranças me afrontaram naquele instante, não só apenas a da minha perda pessoal, mas a da perda de uma especial.
   Gabriel, numa jaqueta velha, descalço, corria em direção às chamas. A angustia refletia em seus olhos verdes, brilhando mais que o fogo que lutava por espaço naquele lago colorido.
   Não suportei mais olhar para aquilo. Fui obrigada a ir embora no momento em que ele foi pego, e seus olhos, involuntariamente, se fixaram nos meus.
   Fui obrigada a sair dali. O que ele buscava eu não sei, mas a dor dele me feria, eu estava senível, eu estava em ruínas.
   Por que existir se vivemos perdendo quem amamos?
   Qual a finalidade de viver em falsas alegrias se uma hora ou outra a tristeza vai chegar e mostrar quem realmente manda ?
   Naquele dia me revelei só, em meio à dores de ambos os lados.
   Eu não queria viver ilusões. Sem mãe, sem um pai de verdade, sem amor, sem amigos, sem futuro. Prefiro morrer. A morte iria me trazer a paz, o descanso, a tão almejada esperança. Uma nova ‘’vida’’, sem querer ser irônica.
   E, acima de tudo, a morte me tiraria de Desdém. Esta maldita cidade onde tudo morre, nada cresce, nada vive.
   Cheguei em casa e arrumei meu quarto. Escrevi uma carta para meu pai que seria lida daqui a um mês, quando ele daria minha falta e já me encontraria em estado de decomposição. Vesti um jeans detonado, uma camiseta escrito ‘Let it Be’ e meu velho Converse azul. Fui ao armário da cozinha e peguei vários vidros de comprimidos e uma sacola plástica transparente. Junto, levei um copo de leite gelado.
   Já no meu quarto, liguei meu computador e selecionei minhas melhores fotos e coloquei para tocar junto a uma musica que dizia alo sobre “ Glitter no ar”
   Minha cama estava coberta com uma colcha que minha mãe havia tecido especialmente para mim. Ao lado do travesseiro estava Ted, o Sapo; o único urso de pelúcia que ganhei durante toda a minha vida.
   Dizem que na vida há muito o que se conquistar. Quem disse isso nunca esteve em Desdém.
   Dizem também que quando se bebe o leite, toma os comprimidos e embrulha a cabeça com o saquinho plástico, a morte vem de maneira simpática. Calma. Indolor. Bonita.
   Eu não queria sofrer mais, não queria sentir dor nem chorar mais do que já chorei.
   Dizem que é pela falta de ar misturada à calmaria do espírito, que faz você ver explosões coloridas, nuvens vermelhas, douradas e amarelas. Tudo diferente do preto e branco desta cidade.
   Mas se analisarmos bem, chega um tempo em que o sangue fala mais alto que nós mesmos e envolve-nos em um apertado abraço. Assim ele tem feito com Desdém. Mas não comigo. Eu não partirei pelo sangue. Partirei pelas cores.
   Deito-me, bebo o leite, engulo os comprimidos e embalo-me junto ao som da música. Seguro na mão do Ted, meu único amigo...
   Quando menos espero, vejo uma bola lilás, depois outra azulada, rosa, laranjada.
   Então, fecho os olhos.
   ‘Vadia, eu vou te matar !’
    Foi minha última lembrança antes de ver uma enorme e dolorida luz branca.
    Mas não. Ainda não foi a minha tão esperada luz no final do túnel. 


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

8 - Georgia


   Eu só podia ver o borrão de cores que era a tarde lá fora se movimentando rapidamente através das gotas d’água.
   – As flores estão se despedaçando – Julie choramingou, a voz aguda e esganiçada – e eu tenho medo dos trovões, você sabe. Depois reprimiu um soluço, agarrando-se a mim.
   – Eu sei, vai ficar tudo bem. – Fazer promessas falsas a crianças de cinco anos, às vezes isso é tudo que podemos fazer.
   Eu já havia me acostumado ao som constante do motor do ônibus, e a vibração irritadiça na poltrona gasta e velha não era mais incômoda, como no inicio da viagem. Era bom que fosse assim. Eu teria que estar preparada para suportar coisas desagradáveis de agora em diante.
   O homem careca na poltrona à frente, quase deitado no meu colo, roncou alto como um porco. Julie assustou-se, e se ela começasse a choramingar novamente, eu me prometi, esmurraria o filho da mãe.
   No reflexo embaçado do vidro, encarei meus olhos. Acho que eles nunca haviam sido tão tristes assim. Pareciam tão sem vida quanto às flores que estavam sendo arrancadas pelas raízes lá fora, na tempestade. 
   Eu e meu drama...
   Coisas assim podem acontecer quando uma das poucas pessoas que você já amou morrem.
   – Georgia, não consigo dormir! – Desde quando Anna, a única mãe que conhecemos, se foi, eu me sentia responsável por Julie. 
   Afinal.  Era errado que eu me sentisse assim, quando não havia sequer traços sanguíneos que nos ligassem? E a resposta sempre era sim. Eu imaginei uma ou duas vezes, após a morte da nossa mãe adotiva, enquanto ainda estávamos no orfanato, deixar que Julie seguisse seu caminho em uma família diferente, porque sabia que ninguém poderia ser feliz estando comigo. Eu era unicamente tristeza. Mas então descobri que não poderia deixá-la ir, quando a Sra. Robem disse que o Sr. Margate, irmão de Anne, iria adotá-la.
   – Ele queria apenas a menor, gostou muito dela, disse que a irmã morta ficaria em paz, onde quer que estivesse – disse ela, da sua cadeira de camurça macia, quando eu ainda estava chorando – mas acho que posso empurrar você também, se ele gostou tanto assim da menina. Afinal, você também morava com Anna. E você já é quase adulta, pode trabalhar. E pare com esse choro, querida!
   E foi assim, uma semana depois, que fomos parar naquele ônibus com lâmpadas quebradas e janelas embaçadas. Nosso futuro era desconhecido. Estávamos indo em direção a Desdém, mas isso não importava, contanto que Julie estivesse bem.

...

   Quando chegamos a Desdém, o céu parecia uma imensa bacia de detergente azul com manchas brancas. A pintura abstrata de Van Gogh numa aula da 4ª série, quando eu nem conhecia Anna ou Julie, me veio à mente. Eu nunca esqueceria aquela aula. Jéssica, uma garota mais velha, derramou tinta em mim, e perdeu alguns cachos do seu cabelo loiro perfeito.
   A chuva já havia parado a algum tempo, mas ainda ventava e fazia frio. Julie estava envolta de mim, com as pernas ao redor do meu abdômen e os bracinhos sufocando meu pescoço. Ela estava dormindo a algum tempo e não seria uma boa ideia acordá-la.
   Ao nosso redor a cidade se estendia. Desconhecida, velha e quieta com alguns prédios comercias, casas pequenas e simples. Calçadas de ladrilhos trincados e sujos. Parecia comum. Talvez Desdém fosse um bom lugar para se viver.
   O motorista com bigode de leão marinho trouxe nossas malas e as colocou perto de mim, na estação.
   – Está esperando alguém, filha? – eu não respondi, ainda estava tentando conhecer a cidade. Ela era comum, mas diferente das outras. Não tente me entender – Não é bom ficar sozinha à noite por ai. Essa é uma cidade pequena, mas você tem uma criança aí, tem que tomar conta dela.
   – Ele já vem – foi o que eu disse, para que ele se calasse. Havia uma mulher dentro do ônibus agora. Ela tinha um bebê no colo e uma expressão de alivio, como se tivesse se livrado de algo horrível. Ai eu percebi que ela ocupava meu assento e de Julie. A mulher estava indo embora então. Tinha subido agora e estava feliz por isso. O motorista entrou no ônibus sujo de terra e se foi.
   Estava escurecendo e o irmão de Anne ainda não havia chegado. Apertei o cachecol desbotado e tentei inutilmente carregar as malas segurando minha irmã morta no meu colo, sem despertá-la. Fracassei e dei chutes nas malas até ficarem perto o suficiente de um dos bancos da estação.
   – Está tudo bem, querida? – uma senhora perguntou, do balcão da lanchonete. – precisa de algo? Um refrigerante?
   Agradeci e recusei. Na verdade estava com fome. Julie havia comido os últimos sanduiches preparados para a viagem, mas não tínhamos dinheiro algum. Foi então que ouvi as sirenes da viatura, um barulho estranhamente confortador.
   Na noite, as luzes azuis ficavam mais intensas e chamativas.
O Sr. Margate saiu desajeitado de dentro do carro. Ele me lembrou a mim mesma, tropeçando nos cadarços nos recreios, no orfanato.
   – Me desculpem se demorei. Coisas pra cuidar na delegacia, nunca é assim por aqui, eu demorei? Desculpe-me de verdade – ele parecia incomodado com algo, perturbado. – Faz tempo que estão esperando?
   – Está tudo bem. Sr. Margate?
   – Sim, otimo. 
   – Pode me ajudar com Julie? Ela esta mais pesada, que antes de entrar no ônibus.
   Ele a tomou nos braços, fazendo-me sentir solitária.
   Assim, entramos na viatura e fomos para casa.
   Naquela noite eu não dormi. Minha mente estava inundada de pensamentos: Eu pensava em Julie e em como ela precisava de mim e eu dela, e também pensava em como ela não precisava mais, afinal, ela tinha uma família agora. Pensava no  Sr. Margate também, e em seus motivos para adotar Julie e a mim, quando haviam dezenas de crianças que sorriam no orfanato. Pensava em Anne e no porque ela tinha ter que morrido, justo quando minha vida era menos infeliz com ela. Era egoísta pensar assim, mas eu nunca me julguei uma boa pessoa.

...

   Na semana seguinte fui à escola. Era como em todo o resto da cidade, pessoas tristes ou algumas que forçavam sorrisos, por todos os cantos.
   Fui uma das primeiras a chegar. Aos poucos a sala se enchia e o professor pedia silêncio constantemente. Eu gostava de química. Amava estudar. Só não gostava de viver.
  Quando a aula acabou  Sr. Margate e Julie estavam na porta da escola. Ele havia sido legal com Julie e comigo durante toda a semana, quase... Paternal, mas era alguém fechado para conversas. Teve momentos que o imaginei sofrendo a perda de Anne tanto quanto nós duas. Talvez estivesse.
   Iriamos ao cinema num dia próximo, ele havia prometido. 
   Eu sei, tudo estava rápido demais, mas era melhor aceitar as mudanças. Elas viriam hora ou outra de qualquer maneira.
   Julie usava meias listradas de laranja e rosa e seu cabelo estava alto e despenteado, as bochechas coradas e os olhos inchados de tanto chorar. Alguém chamou o  Sr. Margate antes que eu os alcançasse. Ele acenou com a mão, já volto. Eu ainda estava impressionada com a forma que todos se conheciam naquela cidade.
   – Ei, está tudo bem? – era um garoto da aula de química, o que chegara atrasado. Eu tentei sorrir, era péssima com garotos.
   Minha voz prendeu na garganta, mas ele pareceu não perceber ou não se importou.
   – Está sim, só minha irmã caçula me causando alguns problemas – eu vi os olhos dele outra vez. Pareciam tristes, mas na luz na manhã eram lindos. Não que isso importasse para mim.
   – Ela é uma menina muito linda – ele estava fazendo aquilo errado, ela não gostava de ser paparicada – Você não devia chorar, é uma menina linda demais pra chorar. As pessoas não vão perceber sua beleza se a tristeza estiver estampada no seu rosto – Julie o lançou um olhar frio, mas ninguém o reconheceria. Ela era realmente angelical.
   – Qual seu nome? Você é o garoto que chegou atrasado, certo? –  eu perguntei. Ele já devia saber algo sobre as duas irmãs Margate, novas em Desdém. 
   – Sou Kobe, e sim, sou eu sim. Não devo ter deixado uma boa impressão. E você?
   Eu hesitei. Pensei nas dezenas de vezes no orfanato em que evitávamos nos tratar por nomes. Fazia você se apegar menos. Mas eu não estava mais lá.

– O que?

– Acho que tem um nome. 

– Oh! Desculpa – Logo me dei conta do que tinha falado. – Geórgia.Me chamo Geórgia.
– Prazer em te conhecer, Geórgia – ele disse meio que sem saber o que completar.
– O prazer é meu. Kobe? Certo? – Eu estava corada, e podia ver que ele também.

...

Já era noite em Desdém. Eu estava sentada na grama, em frente à casa do sr. Margate, com Julie e sua Barbie Pop Star, esperando que ele voltasse. A cidade era silenciosa à noite. Quieta e sem vida.
A Temperatura estava caindo desde que havíamos chegado a Desdém. A respiração formava pequenas nuvens de nevoa a nossa frente, de acordo com as arfadas de ar. Era constrangedor, mas o frio me fazia lembrar os olhos do garoto. Kobe. O verde frio e impenetrável, contudo frágil e gentil. Eu me odiaria se me deixasse apaixonar por aquele desconhecido estranho. A mudança de rotina tão brusca, finalmente devia estar surtindo os efeitos negativos em mim.
Eu já estava arrumando a caixa de brinquedo de Julie, quando o som horrendo se fez ouvir alto e estridente na rua vazia. O som de metal rompendo e sendo rompido. As chamas cresceram rápido, pareciam alcançar o céu.
De repente Desdém acordou e o formigueiro de pessoas invadiu a rua. Havia um ônibus em chamas com crianças dentro. E elas estavam presas para morrerem queimadas.
Todos estavam tentando fazer algo. Com baldes, mangueiras ou ligando para a emergência. Julie apertou forte minha mão.
Em meio à aflição, lembrei que sr. Margate havia falado algo sobre essa ser a noite do acampamento para os garotos. Os garotos que deviam estar morrendo agora. Próximo ao ônibus havia uma viatura em ruinas, era a do sr. Margate, a placa dizia.
O barulho da multidão pareceu ir a segundo plano quando vi sr. Margate no seu banco do motorista, o pescoço retorcido em um ângulo impossível, banhado em sangue. Então a viatura explodiu em uma chuva de labaredas azuis e vermelhas.

Por: Francisco Caio

domingo, 24 de fevereiro de 2013

4 - Vitória



  Estou tão rápida quanto nunca achei ser possível e correndo por entre as arvores vou seguindo enfrente. Tenho que chegar à clareira antes dela, esse é o desafio. Depois disso vamos treinar um pouco de tai chi.
   Apesar da viajem não me sinto nem um pouco cansada. Talvez um pouco triste pelas pessoas deixadas para trás... Catarina e Ygor meus melhores amigos e meus pais.
  Mas pensar nisso me deixa pior, por isso continuo correndo na direção que ela me indicou: “sempre em frente e você chegará lá”, ela disse.
  Vejo uma trilha a uns 15 metros do local por onde estou correndo, e acabo de ter a impressão de que tem alguém andando por lá e é olhando para a trilha que eu acabo chegando sem perceber a clareira e ao lago...
  Eu estou afundando rapidamente. Não lembro como fui parar ali. Vejo a terra se aproximando cada vez mais rápido, mais rápido e mais rápido, é como se ela esperasse o momento em que nos encontraríamos. Não consigo respirar e meu corpo começa e engolir água. Sei que estou morrendo, mas não consigo me desesperar, pois o problema nunca é morrer, é como morrer, o que vem depois da morte essas coisas.Nunca vi a morte como um fim, e sim como o começo da aventura mais bela e misteriosa que eu poderia ter. Por que afinal temer a morte?
  Um pouco antes de chegar ao fundo algo me puxa para cima. Olhos azuis, tudo que me lembro de antes de desmaiar.
…
  Acabo de acordar e estou em um hospital, ainda não abri os olhos, tudo dói, até respirar dói, mas estou escutando as enfermeiras falando.
  – Não é incrível? – ouvi alguém perguntar com tom de descrença. Logo alguém completou:
  – Sim, mas você escutou o que disseram? – Me esforcei para ver quem era. Duas mulheres, deduzi pela voz, mas os rostos estavam distantes.
  - É claro! Ela foi encontrada na floresta ontem no mesmo dia que aquilo aconteceu, – me perguntei sobre o que falavam e voltei a escutar, – ela se ia se afogar no lago e alguém a salvou e depois ligou para cá. A Tia disse que elas estavam fazendo trilha, acabaram se perdendo uma da outra. Já deveria ter acordado. Acho que foi chocante...
  Dormi de novo. Quando acordei novamente notei que era noite e que a dor tinha melhorado bastante, consegui abrir os olhos e olhar ao meu redor. O quarto era pequeno e totalmente branco, tão branco que dava agonia em meus olhos acostumados a ficarem fechados. Tem uma espécie de poltrona e toda aquela parafernália de hospital que eu não sei o nome, mas minha Tia tinha estado ali, era obvio por causa da horrível bolsa laranja que só ela no mundo tinha e que estava na poltrona.
  O sono estava voltando...
…
  Abro os olhos assustada pelo pesadelo que acabo de ter e que não consigo lembrar qual é. Minha tia olhou para mim, levanta as sobrancelhas e faz uma cara que diz: Finalmente acordou! Abre um sorriso tão lindo que eu abro um pequeno sorriso também.
  – Como você está meu bem? – Ela pergunta, sua voz fina não lhe faz juiz a sua beleza jovial.
  – Me sinto melhor, agradecida. Acho que minha chegada aqui não vai passar despercebida depois disso. – desfaço meu sorriso e titia abre mais o dela.
  – Não iria passar despercebida de qualquer forma. Querida, é uma cidade pequena, se o vento mudar de direção é motivo para o povo falar, imagine uma menina linda como você se mudar para cá, para morar com a louca solteirona da cidade. – Minha tia começou a rir como se tivessem contado uma piada engraçadíssima.
  Ela ficava mais linda assim, já era linda de qualquer forma. Deve estar na casa dos seus 30 anos, é ruiva- marca registrada da família de minha mãe- e tem os cabelos desfiados na altura dos ombros, tem os olhos de um castanho muito escuro, é alva, magra e alta com um corpo muito bonito, mas o que a deixa mais linda é a alegria dela, ela vive como se cada dia fosse o último, faz coisas que o povo dessa cidade considera loucura e não se importa nem um pouco com o que falam dela. Já cansaram de falar dela há muito tempo, quando notaram que não fazia diferença nenhuma para ela. Os homens babavam nela e as mulheres sentiam inveja/ciúmes, é claro que sentiam.
  – Claro. Eu sou a sobrinha da louca de Desdém... – comentei com ironia, o que a levou a rir mais ainda. Depois perguntei: – Quanto tempo fiquei aqui?
  – Hoje é o terceiro dia. Só pelo que aconteceu vou lhe dar um tempo para se recuperar mais, o que significa você tem uma semana para se preparar para a escola. – Ela abre seu sorriso para mim novamente. Argh.
  Vir para esse cidade tosca tinha sido ideia dela.
  “Vai ser melhor ela se recuperar em um lugar pacato, sem distrações. E lugar mais calmo que minha casa não há, posso garantir”, ainda consigo me lembrar dela falando isso para minha mãe na sala de estar da minha casa, o pior de tudo, minha mãe acatou a ideia.
  – Detestável! Entretanto não posso fazer nada, posso? – ela começa a balançar a cabeça negativamente. – Quando poderei sair daqui? Já me sinto ótima, como se nada tivesse acontecido. Ah, quem me salvou?
  - Um garoto que estava por perto da clareira – ela sorriu um pouco, não entendo o porquê desse sorriso - Acho que ainda hoje vai poder sair. Vitória, você precisa passear um pouco pela cidade, sentir os aromas. Você mal chegou e já saímos correndo pela floresta. Tem que sair e conhecer sua nova casa – ela falou isso tudo com um enorme sorriso nos lábios, e eu reviro os olhos e jogo um travesseiro na cara.
  - Sei, eu sei sim. Você tem certeza que eu tenho muito a conhecer aqui?
  - Essa cidadezinha tem muito mais a te oferecer do que você acha minha querida.
…
  Acordo às 04h00min da manhã e já vou tomando um banho para meditarmos e depois treinamos tai chi. Numa coisa minha tia tem razão, a cidade realmente é ótima para treinar e meditar, o fato de a casa ser bem afastada daquilo que chamam de centro da cidade, ajuda um pouco, e o fato de que quase ninguém vem procura-la ajuda ainda mais, já que os fofoqueiros se mantinham longe.
  Treinamos a manhã inteira e pausamos para comer, à tarde toco um pouco de piano e depois vou ler um livro. Sinto-me triste pelo fato da escola me tirar meu tempo para treinar, meditar, ler e tocar.
  Escola. O início das aulas continua se aproximando. Argh.
  O passeio pela cidade não fez muita diferença no final, não conheci ninguém e o clima da cidade já era levemente previsível para mim. Cidades pequenas são, basicamente, sempre a mesma coisa. Árvores, casas, praças pequenas, centros comerciais pequenos e pessoas simplórias. As pessoas daqui são tediosas, não conheci ninguém interessante, se bem que mal saí de casa, e quando saí foi para ir ao centro com minha tia comprar algumas coisas novas. As únicas coisas realmente interessantes que encontrei por aqui foi uma loja de antiguidades e uma biblioteca muito aconchegante, na qual pretendo passar meu tempo livre, ainda acho incrível o fato de não ter NENHUMA livraria nessa cidade.
  O dia mal começa e minha tia já me enche de exercícios, mas pelo menos me sinto mais útil aqui do que em casa. Um dia cheio hoje, outro dia tedioso amanhã, dia corrido no meu primeiro dia de aula, e vai ser pior do que deveria ser, já que eu faltei uma semana de aula. É esperar para ver o que vai acontecer (se é que vai acontecer algo).

Por: Letícia Cavalcante