Mostrando postagens com marcador web novela. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador web novela. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de abril de 2013

14 - Dante - Mary Jane

Mais um dia como todos os outros, eu pensei desanimado.  Eu ainda estava chateado com o que aconteceu na noite anterior. Queria entender a razão de Jorge me ignorar daquela forma.
Fui para a cozinha procurar algo para comer. Não tenho ideia de que horas eram, mas devia passar do meio dia, pois a fome era intensa. Não encontrei nada, então me lembrei do que Jorge havia dito em frente à porta do quarto. Abri o armário e vi o dinheiro que ele tinha deixado.
Pensei em sair para comprar algo, mas a lembrança daquelas pessoas me olhando com piedade me fez desistir. Peguei um copo, enchi de água e tomei. Aquilo gelou meu estômago. Repeti a dose umas duas vezes e fui para a sala.
Joguei-me no sofá e desejei que Jorge chegasse logo com comida. Liguei a televisão, vi que falava algo sobre uma garota que morreu ontem no bosque perto de casa, então entendi o que eram os gritos que ouvi. Também vi que havia acontecido um acidente, e uma garota caiu no lago e quase se afogou, mas por acaso alguém estava lá perto e a salvou.  Nada é por acaso.


Ouvi passos do lado de fora, deduzi que era Jorge, o que me deixou feliz.
Ele abriu a porta e entrou. Jorge me olhou com cara de reprovação e mesmo sem entender perguntei:
– Trouxe algo para comer?
– Não.
Soltei um palavrão involuntariamente.
Jorge se aproximou de mim, me olhou com raiva e deu um tapa forte em meu rosto, que na mesma hora ardeu. Senti um calor subindo e tomando conta do meu corpo. Começaram a descer lágrimas.
– Moleque insolente, eu trabalho, me esforço para manter essa casa. Eu deixei dinheiro, você só tinha que sair para comprar comida, isso é mínimo que você deveria fazer. E dar uma ajeitada nessa casa talvez.
Eu sabia que ele tinha razão. Jorge trabalhava duro, saia muito cedo e não tinha hora para voltar. A casa estava de ponta cabeça, suja e abandonada, desde que nossos pais morreram, ela não foi limpa. Não me custaria mesmo arrumar.
Mesmo entendendo não consegui controlar a raiva, eu estufei o peito, e pensei em por pra fora tudo que eu estava sentindo sobre ele me ignorar, mas ao invés disso eu virei e sai. Bati a porta com tanta força que senti o tremor das paredes.
Fazia tempo que eu não saia para a rua.
Era noite, e as lagrimas em meus olhos deixavam as luzes dos postes ofuscadas. Eu estava andando depressa e meio cambaleando. Não sabia para onde eu iria, estava apenas seguindo meus instintos.
Eu havia me esquecido como o silencio das ruas noturnas de Desdém era ensurdecedor.
Desdém... Eu não podia parar de pensar em como eu a detestava. Eu não odiava apenas a cidade, eu me odiava também. Eu odiava o que tinha me tornado depois de tudo que aconteceu. A cidade sempre foi amaldiçoada, mas eu só me dei conta disso quando a desgraça me alcançou.
A melhor parte de mim morreu em Desdém, a minha inocência. Toda aquela felicidade e inquietude que uma criança pode ter eu perdi. Não tenho mais perspectivas. A cidade se alimenta dos sonhos e da esperança de todos e tira o bem mais valioso de cada um.
E culpa é dos próprios moradores, se eles não alimentassem essa cidade idiota, nada disso aconteceria. Enquanto pensava nisso, lágrimas de fogo caiam e eu andava cada vez mais rápido.
Percebi que um pouco longe havia um obstáculo em minha frente. Minha vista estava embaçada, sequei os olhos para tentar enxergar melhor.
Era uma pessoa. Senti um gelo na barriga, quanto tempo fazia que eu não via alguém diferente de Jorge?
Eu ia atravessar rua quando ela falou comigo. Uma voz doce, mas de garota com atitude.
– Está tudo bem com você? – ela disse tentando ver meu rosto.
Eu respondi que sim. Na verdade a minha vontade era de ignora-la ou responder grosseiramente, mas não pude. Quando eu levantei a cabeça para olha-la, me deparei com uma beleza contrastante. Apesar de estar escuro eu podia ver os reflexos alaranjados dos seus cabelos. Os olhos eram em um tom de verde intenso, e passavam uma ternura e delicadeza. Eu não conhecia muitas garotas, mas nunca havia visto uma tão linda quanto esta. 
– Meu nome é Lutrícia Sena e o seu?
– Dante Rodrigues – engoli seco, pois sabia que ela me reconheceria por causa do sobrenome.
Percebi a reação da garota, mas ela, diferente de todos, não foi inconveniente de comentar o assunto.
– Você não estuda? Nunca te vi na escola.
– Não, eu parei.
Por um tempo fiquei olhando para os olhos dela. Senti um pouco de vergonha pelo corte que eu havia feito no meu cabelo, passei a mão tentando ajeitar.
– Corte legal, - ela disse e sorriu. Eu não sabia o que dizer então retribui o sorriso.
– Não devia andar sozinha a noite Lutrícia, e muito menos ficar por ai conversando com estranhos. – disse o garoto que eu não conhecia. Eu não escutei ele chegar, provavelmente porque estava hipnotizado com a beleza da moça.
– Esse é Dante Rodrigues, acabamos de nos conhecer. – Lutrícia disse fazendo um gesto de apresentação. – Dante, esse é Gabriel, – acenei com a cabeça.
– Como eu estava dizendo, não é bom você ficar na rua à essas horas Lutricia, ainda mais depois de tudo que aconteceu. – Gabriel disse me ignorando, ele parecia abalado, mas isso não era motivo para me tratar daquela forma.
– Você tem razão, é melhor eu ir. – ela disse se dirigindo a mim com uma expressão séria. – Eu sou voluntária na Biblioteca Municipal, vou pra lá depois da aula, se você quiser conversar pode me encontrar lá.
Eu assenti.
– Eu te acompanho até em casa Lu. – ele falou com um tom de superioridade.
Lutrícia fez um gesto com a mão e se foi.
Me senti um pouco mal em deixar a garota ir embora com aquele cara. Havia algo nele que eu não engolia. Pode parecer loucura, mas eu senti ciúme. Apesar de não ter nada com Lutrícia, naquele momento toda a atenção dela estava voltada a mim.
Lutricia era realmente muito bonita,e ela me lembrou Mary Jane.
Eu nunca gostei muito de ler, mas Jorge adorava HQ’s. Lembro me de um dia, alguns anos atrás, Jorge me mostrou sua coleção de quadrinhos, entre eles um chamado “Homem Aranha”. Folhei as páginas da revista quando me deparei com uma linda garota, desenhada em traços sofisticados, com sombras e efeitos. Os cabelos eram ruivos e os olhos claros, rosto delicado e curvas tentadoras. Perguntei a Jorge quem era e ele respondeu com uma suspirada.
– Mary Jane. É linda não é?
– Sim, quero casar com ela – eu disse arregalando os olhos. Nós dois começamos a rir. Em geral não tínhamos muitos momentos como aquele, nós não compartilhávamos dos mesmos gostos.
Jorge sempre foi um ótimo exemplo, gostava de ler e estudar, nunca deu trabalho para meus pais. Pensando nisto, imagino como deve ter sido doloroso para ele abandonar os estudos, ele sempre sonhou em ir para a faculdade.
Eu sempre fui rebelde e mimado, meus pais gastavam muito tempo comigo, sempre eram chamados na escola por causa das minhas brigas e bagunças. Isso deixava o Jorge com ciúme, por mais que ele não admitisse.
Fisicamente nós nos parecemos muito, é impossível alguém falar que não somos irmãos. O formato dos nossos rostos é praticamente igual, parecem ter sidos desenhados com a régua, traços retos e agressivos. Os cabelos no mesmo tom, um castanho escuro, que puxamos do nosso pai.  O que nos diferenciava eram os olhos, os meus eram da minha mãe, e os do Jorge pareciam mais com os do papai.
Eu estava tão perdido em pensamentos que nem percebi onde estava, eu já tinha andado um tanto e chegado à entrada do bosque, resolvi entrar para passar o tempo já que não pretendia voltar para casa. .
Fui entrando apoiando-me nos troncos para não cair. Eu estava com medo, mas apesar de estar escuro, a luz da lua iluminava o contorno das árvores e caminhos, o que me confortava um pouco.
Depois de caminhar certo tempo cheguei a um lugar que conhecia bem, era uma área bem mais aberta, onde o papai sempre nos levava para brincar quando crianças. Logo esbarrei em alguma coisa. Estava bem à minha frente e bateu na minha barriga. Passei as mãos e logo reconheci. Era uma balança feita de pneu, certamente a mesma que costumávamos balançar. Lembro perfeitamente da cena, eu sentado na balança, ainda era bem pequeno, meus pés nem alcançavam o chão, papai me empurrando e Jorge sentado no chão. Eu me divertia muito, repetia incansavelmente:
– Mais forte papai, mais forte!
E eu fingia que estava voando, sentia-me um super herói. Jorge não parecia se divertir muito, ele ficava jogando pedrinhas no lago à sua frente. O lago... Aquele lago azul claro, que era reflexo do céu nas minhas lembranças, nem parecia o mesmo de agora. Tão negro e sombrio, com exceção da luz que surgia bem no centro dele. A lua refletia no lago, ela estava perfeitamente redonda, e dava a impressão de que estava encostando na água e derretendo. 
Me aproximei um pouco e admirei a imagem, que por alguns instantes me hipnotizou.
Ouvi alguns barulhos vindo do meio das árvores, me assustei e quase desequilibrei. Foi por pouco, tão pouco que até ouvi o barulho de algumas pedrinhas caindo, certamente era uma daquelas que Jorge costumava atirar ali.
Lembrei-me do que havia acontecido no bosque no dia anterior, e corri para me esconder. Escolhi uma árvore bem larga, uma das mais próximas dali. Ouvi o barulho de folhas amassando se aproximar, e do meio das árvores saiu Jorge. Ele caminhou até a margem do lago, ficou um tempo olhando a luz da lua, assim como eu tinha feito antes e se sentou. Onde eu estava escondido, dava para vê-lo exatamente de perfil. Os contornos de seu rosto estavam iluminados, me esforcei um pouco para ter certeza, mas ele parecia estar chorando. Ele pegou algumas pedras e começou a atirar. Algumas quase que sem força alguma, outras ele enchia o peito e parecia se esforçar para atirar o mais longe possível. 
Eu não sabia o que fazer, não queria falar com ele naquele momento, até porque comecei a me sentir culpado por termos discutido. Mas também eu não podia ir embora, pois Jorge escutaria e viria atrás de mim. A única opção era esperar até que ele fosse, e então ir embora logo depois, assim quando eu chegasse em casa ele já estaria dormindo e eu não precisaria enfrentá-lo.
Depois de um tempo a posição foi ficando cada vez mais desconfortável, e eu estava me esforçando para não me mexer muito. Jorge já tinha parado de jogar pedras, agora ele estava sentado, abraçando as pernas e com a cabeça abaixada. Logo depois ele deitou no chão com os braços atrás da cabeça e ficou imóvel. Ele dormiu.
Eu não contava com isso, mas já que ele havia adormecido, resolvi ir embora. Fui andando com todo o cuidado para não fazer barulho e acordá-lo.

Quando abri a porta tive uma surpresa, a casa estava toda revirada, móveis tombados, coisas espalhadas e quebradas. Atentei-me ao vaso de louça que ficava encima da mesinha perto da televisão, estava estilhaçado, sem possibilidade mínima de recuperação. Era o vaso favorito da mamãe, ele abrigava umas florzinhas, eu não sei o nome, mas eram pequenas e rosas, e cresciam bem próximas ao caule. Agora elas estavam esparramadas junto a terra escura no chão.
O que havia acontecido? Será que Jorge tinha perdido o controle quando sai, e fez toda aquela bagunça, ou será que outra pessoa havia entrado em casa, já que a porta estava destrancada.

Eu não iria arrumar tudo aquilo naquela hora, então fui tomar um banho quente antes de dormir. Meu corpo estava dolorido por ter ficado tanto tempo na mesma posição, e eu estava com a cabeça a mil. Aquela discussão com Jorge, a garota que eu havia conhecido, as lembranças... Tudo  aquilo estava borbulhando na minha cabeça. Entrei embaixo do chuveiro, liguei a água quente e deixei escorrer. Quando me senti relaxado, sai do banho, subi para meu quarto e me joguei em minha cama.


Por: Luna Gabriella

quarta-feira, 3 de abril de 2013

13 – Bernardo – Sentimentos


Minha mãe, que normalmente chamava de Laura, chegou por volta das 11h30min da noite horrorizada.
Pausei meu jogo – em meu Playstation – e me aproximei calmamente perguntando:
                – O que houve?
– Um acidente no centro da cidade, seguido de explosão, um garoto correu desesperado e, por ter invadido a cena, foi preso... Foi terrível!
                Franzi a testa surpreso, três desastres em um dia... Hoje se tornaria um dia lendário para Desdém.
Laura olhou-me estranhamente.
– Você não está assustado ou receoso com tudo isso? – perguntou.
– Não envolve a mim. – falei dando de ombros e fui até a cozinha, estava a fim de beber.
Abri a geladeira e peguei uma cerveja, de vez em quando ter uma mãe alcoólatra tinha suas vantagens, como ter sempre cerveja na geladeira e whisky nas garrafas de academia*.
– Desde quando você é tão insensível? – havia me esquecido que Laura não conhecia este meu lado, pois eu evitava conversar com ela.
– Desde quando você se importa? – rebati abrindo minha cerveja e tomando um gole.
Ela recuou um passo.
– Em sempre me importei com você, sou sua mãe!
Revirei os olhos.
– Se você realmente se importasse comigo, você saberia que, quando eu fugia de casa, eu ia até Claudia, ela cuidava de mim como se fosse minha mãe, pois você nunca pensou em ser uma. – falei indiferente. – Que ao invés de cuidar de mim, você afogava suas mágoas em bebidas por um homem que nem ao menos deu sinal de vida depois que desapareceu, que não se importou se ficaríamos bem ou não, que sumiu como se não tivesse deixado nada de importante para trás.
Ela ficou paralisada, mas continuei falando:
– Então, antes de dizer que se importa, pense se isso é a verdade. – falei enquanto terminava minha cerveja e ia pegar outra. – Pois não basta se nomear mãe, tem que agir como uma.
Com uma cerveja em cada mão, subi para o meu quarto sem me importar com a sua reação, afinal ela nunca se importou com a minha quando eu a encontrava apagada no sofá cheirando a vodca.
Observação: eu tinha oito anos nessa época.
Encerrei-me em meu quarto e abri mais uma cerveja. Eu sei que não foi certo jogar na cara dela tudo o que aconteceu, mas eu tinha que falar o que estava acumulado em minha mente há muito tempo antes que eu surtasse com tudo isso.
Liguei meu computador e fui mexer em minha playlist de favoritos. Liguei o aleatório e a primeira música que tocou foi Don’t Go do Bring Me The Horizon.
Eu adorava a letra dela, digamos que dizia exatamente como eu me sentia. Precisava urgentemente de uma pessoa que me salvasse desse inferno, dessa desolação que sempre estou... Precisava de uma pessoa que não fosse embora.
Acabei pegando meu caderno de desenho e, enquanto bebia minhas cervejas, delineava o rosto da garota, Vitória. Seus cabelos ruivos haviam me encantado tanto quanto seus lábios, me fazendo imaginar como seria beijá-la...
Sacudi a cabeça fechando abruptamente o caderno. Eu não sabia o porquê de meu interesse nela, eu a havia visto somente hoje, e desmaiada ainda por cima!
Algo me dizia que ela mudaria algo em minha vida, mas se era para melhor ou para pior, eu sinceramente não sabia dizer.
...
Passei sete dias sem falar com Laura. Só a ouvia sair de manhã para trabalhar e voltar às onze horas da noite.
Nesse meio tempo eu comecei a tocar um pouco em meu piano e notando que eu estava um tanto enferrujado, afinal eu havia aprendido com Claudia aos sete anos e parei de tocar aos quinze.
No domingo ela chegou em casa às oito horas – ela não trabalhava nos domingos, então eu não tinha a mínima ideia de onde ela havia ido – e se impressionou ao me encontrar sentado em frente a piano tocando a mais doce das melodias feitas por mim.
Ela se aproximou do piano e ficou me observando até eu tocar as últimas notas.
– Já fazia tanto tempo que você na tocava. – comentou ela baixinho.
– Eu sei. – falei simplesmente.
Eu queria falar para ela que eu sentia muito pelas coisas rudes que eu havia dito, mas as palavras não saíam, elas travavam em minha garganta como se eu não tivesse permissão de proferi-las.
Acabamos ficando em um clima estranho, então Laura quebrou o silêncio.
 – Tenho uma novidade para lhe contar. – comentou ela indo para a cozinha.
A segui curioso.
– E o que seria?
– Eu entrei no AA. – disse sorrindo. – Agora eu quero sair disso, quero largar isto que só me fez infeliz e a você também.
Arregalei meus olhos em surpresa.
 Laura no Alcoólicos Anônimos? Parece até uma piada.
Todos sabiam que ela tinha um pequeno grande problema com bebidas, Laura ir ao AA é o eufemismo do ano.
– E você acha que irá realmente adiantar? – perguntei.
Ela deu de ombros e pegou uma jarra de suco da geladeira.
– Se eu tiver força de vontade, conseguirei. – disse simplesmente.
– Se você acha... – acabei deixando para lá, era a vida dela afinal de contas.
Fui em direção a escada, mas Laura me chamou.
– Bernardo, soube que você não foi aos três primeiros dias de aulas, então amanhã você irá. – disse decidida.
Olhei para ela abruptamente.
– Como? – eu acho que ouvi errado.
– Você acha que faltando à aula vai conseguir sair de Desdém? – perguntou diretamente.
Estreitei meus olhos, mas a deixei falar.
– Pelo menos termine o ensino médio, depois você pode fazer o que quiser, afinal, terá dezoito anos.
Suspirei, ela não iria desistir.
– Ok, amanhã irei à aula. – falei cedendo.
Ela sorriu.
– Que bom.
Virei e subi as escadas, eu sabia que Laura estava tentando se aproximar de mim, mas eu não conseguia deixá-la entrar. Acho que depois de tanto tempo acostumado com ela me ignorando, acabei não sentindo mais falta de sua atenção.
Deixei minhas coisas devidamente organizadas para amanhã e me deitei, meus pesadelos haviam parado desde que salvei Vitória do lago, e agora a única coisa que sonho é com aqueles cabelos ruivos balançando contra o vento e saber a cor de seus belos olhos.
Pensando nisso, adormeci.

                                                                 ...
Acordei com meu travesseiro todo molhado de suor. Era só eu comentar que ele havia parado que o pesadelo voltava com força total.
Olhei a hora em meu celular, eram 06h15min da manhã. Então levantei-me e fui tomar um banho, pois ainda estava com os efeitos do pesadelo.
Coloquei uma calça jeans surrada, uma camisa azul escrita “Fuck All” e meus velhos All Star. Desci nada animado e Laura estava saindo.
– Deixei café pronto pra você. – avisou-me e saiu.
Fiz umas torradas rapidamente para mim e servi-me um pouco de café. Consegui terminá-lo em quinze minutos.
Peguei meu Ipod e meus fones de ouvido, pois se eu iria passar pelo centro da cidade, teria que ser com distração. Liguei o Ipod e coloquei Not Alone do Red, as letras dessa banda eram extremamente belas, e esta música em especial tocava algo dentro de mim que eu não sabia explicar...
Saí chaveando a porta e fui vagarosamente para a escola.
Senti vários olhares em minha direção, mas os ignorei, era sempre assim quando eu passava pelo centro. Quando se tem uma reputação como a minha por aqui, é difícil desmanchá-la ou refazê-la, é por isso que a deixo como está, o povo de Desdém adorava falar de mim. Quer dizer, eles gostavam de falar de qualquer um que não se encaixe aqui.
A minha escola era velha, descuidada e sem graça, tinha uma torre no meio do prédio com um relógio – aquilo quando tocava era um caos para os tímpanos.
Entrei e vi todos os alunos entrando na sala, então tirei meus fones, entrei sem olhar para os lados e me sentei no lugar habitual. Vi as pessoas olhando para o fundo da sala e um grupinho de garotas escandalosas falando e rindo, e Laura ainda queria que eu terminasse o ensino médio.
Como diria Funérea Depressão: Ai que infortúnio!
Bateu e logo o professor Augusto entrou na sala. Hoje tinha literatura, eu ainda não tinha pegado o horário deste ano, e nem iria.
Ele largou seu material em sua mesa e foi direto para o quadro escrevendo duas frases e perguntou a quem pertencia:

“Tarde demais o conheci, por fim; cedo demais, sem conhecê-lo, amei-o.”

“Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor.”

Nem levantei a mão, apenas respondi:
– Shakespeare, professor. – falei rapidamente.
                –Muito bem, está correto. –disse o professor sorrindo animadamente. –Agora, alguém aqui sabe me dizer que conceitos a primeira frase emprega, ou quer dar sua opinião a cerca desse glorioso sentimento que é o amor? – Augusto falou empolgado.
Como ninguém respondeu, uma garota no fundo da sala falou:
–Respondendo a segunda pergunta, eu acho que foi a loucura, professor, o que mais motivaria alguém a falar assim? – falou a garota asperamente.
–Eu já acho professor que quem falou esta frase estava vivenciando o mais puro e verdadeiro amor. – rebati um tanto chocado.
–Na primeira frase, por exemplo, fica explicito que eles mal se conheciam. Como pode o ''amor'' existir dessa forma? Entre dois seres que mal se conhecem. O amor por tanto não motivou nada. Talvez o desejo sim. – ela praticamente cuspiu as palavras.
Essa garota era boa em argumentar... Mas não comigo dentro da sala.
–O amor não é um sentimento racional, ele acontece de forma que poucos sabem ou sentiram. –  disse ficando levemente estressado.
Neste momento a nossa discussão acabou virando algo para atingirmos um ao outro e não sobre o conteúdo da aula, até envolvi meus problemas pessoais nisso tudo... Que garota insuportável!
Teve uma hora que ela mesma tentou dar um fim nela.
–Enfim, professor essa é minha opinião. – disse a garota, provavelmente sorrindo.
Não me aguentei, acabei virando para falando.
– Você não pode provar que não existe! – falei e acabei paralisando em surpresa.
Aqueles cabelos ruivos, os lábios vermelhos, a pele clara... Eu a conhecia.
A última coisa que encarei foram seus olhos, que eram lindamente amarelos. Agora eu tinha como delinear seus olhos.
Vitória.
Ela ficou sem reação quando me viu e corou levemente, só não entendi o porquê do reconhecimento em seus olhos.
Ela levantou o queixo em superioridade e falou:
–Você também não! – a voz saindo tanto falhada quanto acusativa, mas alta o suficiente para que eu a escutasse.
Ficamos nos encarando durante algum tempo e eu interrompi nossa troca de olhares virando para a frente.
O que eu iria fazer convivendo com ela até o final do ano?
O meu destino estava me pregando uma peça, só podia ser.
                                                              ...
Assisti às outras aulas sem sequer olhar para o fundo da sala. Eu senti o olhar dela em minhas costas e fiquei tentado a olhar por cima de meu ombro, mas me controlei e continuei a olhar para o quadro.
Na hora do intervalo eu simplesmente sumi de sua vista, indo direto para a torre do relógio. Tinha uma escada por dentro que me permitia um pouco de paz dentro disto... E que me permitiria um tempo longe de Vitória.
Eu ainda não acreditava que ela estava em minha sala, que teria que vê-la cinco dias por semana e provavelmente nos fins de semana, pois Claudia morava em minha rua. Minha vida definitivamente havia virado de cabeça para baixo.
Bateu e eu voltei vagarosamente para a sala, queria dar um tempo para que Vitória entrasse antes de mim e eu não precisasse cruzar com ela agora. E acabou sendo um plano que teve sucesso.
Assisti as duas últimas aulas e, quando bateu, fui o primeiro a sair da sala. Liguei meu Ipod e começou a tocar Frozen do Within Temptation.
Estava caminhando tranquilamente até notar alguém caminhando ao meu lado.
Tirei os fones e olhei para o lado. Era Vitória.
– Ah... Olá? – disse franzindo a testa.
– Olá. – ela falou, dando um enorme sorriso.
Aquele sorriso me fascinou, mas mantive meu rosto neutro.
– Por acaso quer fazer mais algum comentário sobre o assunto da aula de hoje? – perguntei irônico.
Ela faz uma careta rápida, mas logo sorri novamente.
– Na verdade não é isso. É que eu queria lhe agradecer.
Eu parei. Ela sabia que fui eu? Ou Claudia comentou algo? Terei que sondar.
– Agradecer o que? – perguntei fingindo confusão.
Ela para um pouco mais na frente e vira de lado para mim. Ela para de sorrir e os olhos dela se abrem um pouco mais, ficando mais brilhantes.
 Ela faz um biquinho e diz:
 – Ah, pela história do lago, sei que foi você Bernardo. – E volta a sorrir de lado.
Eu arregalei os olhos levemente.
– De onde você tirou essa certeza toda? – perguntei. – E outra, como sabe meu nome?
–Claudia. – disse simplesmente e deu uma pequena risada.
Suspirei cedendo.
– Claudia irá ficar me devendo depois dessa.
Ela começou a rir.
– Eu sabia que era você, e obrigada novamente. – ela ficou com um sorriso radiante no rosto.
O sorriso dela brilhava mais do que as estrelas em seus melhores dias...
Situe-se Bernardo, repreendi-me mentalmente.
– Era o melhor que eu poderia fazer. – disse dando de ombros e voltando a caminhar. – Simplesmente era o certo.
 – Entendo. Só não digo que faria o mesmo por que, bom, eu iria acabar morrendo junto com a pessoa. – e riu, provavelmente pensando na cena,
Ela era tão extrovertida, legal... Acabei sentindo um sorriso se espalhar pelo meu rosto.
– Você é mais legal quando não está discutindo, sabia? – deixei escapar.
– Sabia sim. – ela fez uma careta, balançou a cabeça negativamente como se tivesse afastando um pensamento e voltou a sorrir. – Você também não é nada chato.
– Quando não está discutindo – completou rapidamente.
– Só não espalhe isso por aí, tenho uma reputação a manter. – falei brincando.
O que estava acontecendo comigo?
Ela riu um pouco.
– Bem, eu ainda não tenho a quem contar. – disse pensativa. – E penso que todas as pessoas por aqui tenham uma.
Fiquei sério pela mudança de tema.
– Sempre temos uma reputação, as pessoas têm um grande talento de julgar ao próximo por aqui. – disse a ela.
– Acho que logo, logo terei a minha. – ela riu. – E não será das melhores.
– Provavelmente, ainda mais sendo sobrinha de Claudia. – comentei.
– Com certeza. – e sorri novamente.
Rezo aos céus para que Desdém nunca tire este sorriso dela.
– Ei, não deveria ser tão sério, é mais bonito sorrindo.
Passei a mão pelo cabelo constrangido.
– Ah... Obrigado? – falei, provavelmente estando vermelho.
O que esta garota está fazendo comigo?
– É o que se diz quando alguém faz um elogio. – disse sorrindo. – Não se acha bonito?
Antes que eu respondesse, ela falou:
– Não se subestime.
Respirei fundo.
– Digamos apenas que eu nunca pensei nisso.
– Ah, sim... – ela balançou a cabeça positivamente. – Reconheci você pelos olhos. – falou ela mudando de tema novamente.
Franzi a testa surpreso.
– Pelos olhos? Mas como se você estava desacordada quando lhe tirei do lago?
– Não sei, eu só me lembro dos seus olhos. Talvez eu tenha acordado em algum momento. – disse pensativa. – Mas de qualquer forma é a única coisa que me lembro e, bom, eu fiquei de...
Vitória parou de falar.
Eu olhei para o lugar onde ela encarava e vi um garoto, ele deveria medir 1,87m, tinha cabelos cor chocolate e olhos acinzentados.
Não sei o que me deu exatamente enquanto ela abria a boca em surpresa ainda olhando para o garoto e saia correndo, deixando seus cadernos caírem no chão e se abrirem em uma página onde estavam desenhados olhos azuis... Os olhos que encaro todo dia quando olho no espelho.
Algo em minha mente me disse para sair dali, e foi o que eu fiz, sem dar uma única olhada para trás.

“Quando o destino junta duas pessoas, não há nada que as separe”

(*http://www.visuartbrasil.com.br/imagens/visuartbrasil.com.br/produtos/Linha%20Vip/Garrafas_academia_-_500ml_e_600ml.jpg)

Por:  Djessica Millage

segunda-feira, 1 de abril de 2013

12 - Vitória - Lembranças


Acordei por volta das 03h40min da manhã (não que conseguisse dormir muito mais que isso) agarrada ao travesseiro que estava encharcado de lágrimas. E logo fiquei com raiva, achei que tinha me livrado dessa maldição, desde que tinha chegado aqui nem uma noite sequer esse maldito pesadelo tinha vindo, por que justo hoje? Era sempre o mesmo sonho, na verdade era sempre a mesma lembrança. Lembranças nunca morrem essa era a verdade e a maldita lembrança tinham voltado para me atormentar justo no meu primeiro dia de aula. Eu vinha tentando ignorar tudo durante todos os cinco meses que seguiram o “problema” e não cheguei nem perto de um bom resultado, mas não queria confrontar isso, ainda não estava pronta, preferia fingir que estava bem.
O sol ainda não havia nascido e meu quarto se encontrava na escuridão total, o cheiro do meu incenso de cravo ainda pelo ar, isso me dava uma espécie de conforto estranho. O escuro me escondia dos meus medos.
Georgia e Julie ainda deviam estar dormindo no quarto delas. As novas filhas de Tia Claudia. Julie, a menor, era uma fofa e Georgia, a mais velha, apesar de muito bonita parecia meio desolada. Só fiquei sabendo delas no dia anterior, depois da nossa seção de treinos, umas três horas antes de elas chegarem. A casa tinha espaço para mais umas cinco pessoas (sem contar com Titia, comigo e com Alex, o filho dela que estava na faculdade) viverem confortavelmente, e Claudia tinha dinheiro para adotar mais cinco e cria-los muito bem. Titia me contou algo sobre um incêndio em um ônibus, muitas mortes, crianças no ônibus, o pai das meninas morreu e ela era amiga dele. Tudo isso aconteceu no dia que me afoguei e titia resolveu que adotaria as duas e, bom, foi isso que fez, mas demorou uma semana até que tudo estivesse em seus devidos lugares e as meninas pudessem vir para cá.
Tia Claudia tinha ido buscar elas no orfanato. Quando chegaram estava tocando piano na sala de música e cantando baixo, por isso não notei a presença delas. Foi apenas quando Julie veio para perto de mim que notei que elas haviam chegado. Parei de tocar, dei as boas vindas, ajudei-as a colocar as malas no quarto e descemos para comer. Eu tinha preparado bolo de chocolate, pão de queijo e café. Acho que Julie adorou as comidas, pois comeu bem, já Georgia estava bem mais calada e comia pouco, definitivamente podíamos chegar a ser amigas um dia. Ela era realmente muito bonita, tinha cabelos longos e negros e olhos castanhos, era um pouco mais baixa que eu e Julie (apesar do cabelo castanho claro) parecia um pouco com ela. Depois Georgia subiu para arrumar suas coisas, titia começou a ler para Julie e eu subi para meu quarto, era cedo ainda, mas eu queria organizar umas coisas, ler e dormir depois.
...
Não se passaram nem 40min e desisto de tentar qualquer meditação das que conheço. Argh. Meditar já era complicado e não ajudava em nada se você não conseguia aquietar a sua maldita mente tagarela. Eu tentava ignorar as lembranças que sempre se seguiam depois do pesadelo, mas você não pode simplesmente meditar com a mente cheia de coisas que você só queria varrer para debaixo do tapete. Odiava lembrar daquilo, o motivo para eu estar em Desdém nesse exato momento.
Subi rapidamente para meu quarto e estando lá passei direto para o banheiro, acendi um dos meus incensos de cravo e fui para o box. Lavei e hidratei meus longos cabelos ondulados e fiz o mesmo com minha pele, quando acabei meu banho enrolei meus cabelos e meu corpo em toalhas que estavam lá.
Quando sai do Box e me olhei no espelho acabo tendo uma surpresa, estou bonita. Não que eu fosse feia, sabia que não era, mas nunca me achei bonita o suficiente, ter uma mãe modelo em casa não ajudou muito, ser comparada o tempo todo com ela, a obrigação de ser linda e gloriosa como ela, essas coisas eram muita pressão e não fazem bem a autoestima de ninguém. Mas o fato é que no meu primeiro dia de aula eu me senti bonita. Meus grandes olhos amarelos, apesar do pesadelo, estavam brilhantes, minha pele estava bonita, apesar de ter uma pele muito clara eu estava mais corada, algumas finas mechas de meu cabelo caiam em meu rosto. Afinal Desdém está conseguindo me deixar melhor, não totalmente é claro, mas melhor. E isso me lembrava de Catarina e Ygor, tinha uma ideia do que diriam se me vissem agora. Tinha certeza que iam ficar muito contentes, pois há muito tempo eu não ia bem, apesar de tentar esconder os que me conheciam sabiam como eu estava por dentro. A dor tinha me mudado, acho que ela muda a todos.
Estava com muita saudade dos meus amigos. Lembro quando íamos à escola, sempre juntos. Ygor passava para me buscar no carro dele e depois íamos pegar Cat.
Catarina era praticamente uma rainha da escola, com seus longos cabelos cacheados cor de avelã e mechas cor de cobre, seu corpo perfeito (e como não? Ela praticamente já nasceu fazendo ginástica olímpica), sua pele dourada e seus olhos verdes esmeralda, eu ainda não sei como viramos amigas, ela sempre foi popular demais, linda demais. Quando tinha nove anos, eu era um dos seres mais desengonçados da face da terra e ela já era linda e segura de tudo, nos conhecemos graças as nossas mães, que são melhores amigas, porém a família de Cat morava na Califórnia e tinham acabado de se mudar de volta para o Brasil, logo na primeira visita a minha casa nós nos tornamos amigas. Ela sempre escolhia minha roupa quando saiamos e me defendia na escola quando falavam de mim, estava sempre lá, sempre que eu precisava e eu fazia o mesmo por ela, Cat era incrível, uma amiga leal e sincera. Ela meio que me introduziu no mundo dela e de certa forma eu gostei das atenções em mim, sempre gostei de ter amigos a minha volta, gosto de fazer as pessoas felizes e gostei da vida que Cat me proporcionou, pelo menos antes dele aparecer e estragar tudo.
Ygor era popular também, não nas mesmas proporções que Cat, mas ainda assim popular, era um dos meninos mais lindos que eu conhecia, deveria ter em torno de 1,87m e tinha um lindo corpo atlético (resultado de anos de futebol e muay thai), seus cabelos eram cor de chocolate sedosos e lisos que faziam um contraste perfeito com a pele clara, tinha olhos acinzentados que eram incrivelmente brilhantes e os beijos dele eram quentes e doces assim como ele. Ele foi uma surpresa enorme para mim, diferente do que eu imaginava dele (um imbecil arrogante) ele se revelou um dos seres mais gentis e compreensivos da terra.  Viramos amigos quase instantaneamente depois de conversarmos um pouco, era como se nos conhecêssemos há anos, foi meio mágico. Depois de um tempo engatamos uma amizade colorida e era incrível a sincronia que tínhamos, não era nada forçado ou ciumento, não tinha cobranças nós só nos beijávamos quando era conveniente, mas éramos muito mais amigos que qualquer outra coisa. É claro que depois do acontecido nós paramos e mesmo depois que eu resolvi que não ia desistir da minha vida por aqueles momentos de sofrimento, não voltamos mais, não por falta de vontade, era mais por falta de oportunidades.
Enfim saio do banheiro e escolho a roupa para meu primeiro dia de aula: uma calça preta justa, uma regata preta e por cima dela um suéter de tricô rasgadinho cor de vinho, uma sapatilha preta e minha tiara de pérolas falsas negras, ponho meus anéis e algumas pulseiras, me olhei no espelho e quase ri, tinha ficado muito bonito, mas preto não era minha cor favorita, isso sem contar que não sou a maior fã das calças. Fiquei algum tempo decidindo se usaria ou não maquiagem, por fim decidi usar lápis de olho marrom (que segundo Cat realçava meu olhos amarelos), rímel, um blush pêssego só para não ficar branca demais e um gloss incolor. Antes de sair do quarto peguei minha bolsa de couro sintético marrom, meus cadernos na cômoda e meus óculos de sol estilo John Lennon.
Desci com meu gato Helly no colo, e encontrei titia fazendo o café. Olhei para o relógio, ainda eram 05h50min. Ela se virou assim que cheguei ao último degrau e franziu a testa.
–Vai ao velório de quem? ­– falou isso depois de se virar para coar o café e deu uma risadinha.
–Oh! Você não ficou sabendo?! – falei com um espanto fingido na voz – Estou indo no velório da minha vida social. – ela riu e pôs a garrafa de café na mesa. Eu realmente não achava isso, não tanto, até que eu tinha gostado da calma e tranquilidade de Desdém, mas minha vida não estava aqui e nunca estaria.
–Não fale assim. Você está subestimando demais Desdém. Ainda vai se surpreender. ­– ela disse séria olhando nos meus olhos e depois sorriu, eu sorri também e dei língua para ela.
–Vamos ver.
...
A escola era relativamente grande e bem velha, até que podia ter sido bonita um dia, mas os maus tratos que o clima mais os descuidos produziram foram desastrosos para a conservação da mesma. Era feita de tijolos bege(?) antigos, tinha um telhado, que deve ter sido cinza um dia, praticamente todo coberto por folhas e musgo e tinha uma espécie de torre no meio que se elevava acima do resto da escola, na qual se encontrava um relógio.
Cheguei à escola muito cedo, quase ninguém havia chegado ainda. Fui à secretaria pegar meu horário e comprar meu uniforme. Eu estava no 3° ano A e o uniforme era muito sem graça, uma blusa azul escuro e branco, com o símbolo tosco da escola, pelo menos a parte de baixo do traje era opcional, só tinha que ser algo em um tom escuro. Dirigi-me a minha sala e sentei no fundo, hoje eu queria observar meus novos colegas de classe.
Logo a sala começou a encher. Via as pessoas entrando na sala e começando a conversar, a maioria olhava para mim, mas tentava fingir que não estava olhando. Havia um garoto de cabelos negros próximo a mim, que parecia não estar na sala, seus pensamentos vagavam para um local que eu desconhecia, era um garoto bonito, mas triste; uma loira bonita e sozinha num canto, umas menininhas engraçadas que estavam tentando esconder que falavam sobre mim, uns garotos que me olhavam de um jeito que odiava e o mesmo tipo de gente que se encontra nas escolas em geral. Infelizmente descobri que Georgia não estudava comigo, e que em nas sextas ela saia mais cedo que eu, o que significa que terei de ir embora sozinha.
O sinal finalmente bateu e o professor Augusto entrou na sala. A primeira aula era literatura. Eu imaginava que a matéria da escola estaria atrasada em relação a minha outra escola, mas não tanto. Íamos falar de Romantismo, eu passei a odiar tudo que era romântico desde que tudo aconteceu. Ele escreveu no quadro duas frases de Shakespeare e perguntou de quem eram.·.
“Tarde demais o conheci, por fim; cedo demais, sem conhecê-lo, amei-o.”
“Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor.”
Eu levantei a mão para responder, mas um menino da frente respondeu antes.
–Shakespeare, professor. –ele respondeu rápido e sem levantar a mão, só pude pensar em como ele era mal educado. Não o tinha notado antes, talvez tivesse chegado depois.
–Muito bem, está correto. –disse o professor com um pequeno sorriso animado nos lábios. –Agora, alguém aqui sabe me dizer que conceitos a primeira frase emprega, ou quer dar sua opinião a cerca desse glorioso sentimento que é o amor? – ele falou com empolgação, provavelmente por alguém ter respondido a primeira pergunta corretamente. Eu torci a cara para a última pergunta. Porém essa ninguém respondeu, ele ia voltar a falar, então eu levantei a mão, resolvi dar minha opinião. Ele fez um gesto com as mãos indicando que eu poderia falar e quase toda a turma se virou para mim.
–Respondendo a segunda pergunta, eu acho que foi a loucura, professor, o que mais motivaria alguém a falar assim? – minha voz saiu alta e clara, porém mais áspera do que eu esperava.
–Eu já acho professor que quem falou esta frase estava vivenciando o mais puro e verdadeiro amor. – o garoto mal educado da frente rebateu com uma voz que parecia chocada e meio histérica ao mesmo tempo. Levei alguns segundos para poder pensar sobre o assunto, fazia tempo que eu não debatia com alguém, na minha antiga escola eu costumava fazer isso com os professores, era adorável, sempre conversei muito com eles, mas nessa escola era diferente, o garoto estava realmente discutindo comigo. O garoto, pelo que eu podia ver da minha carteira, estava usando all star, uma camisa azul e um jeans com aparência meio gasta, ele tinha os cabelos pretos e meio bagunçados e era alvo. Se ele queria discutir comigo, era o que iria ter.
–Na primeira frase, por exemplo, fica explicito que eles mal se conheciam. Como pode o ''amor'' existir dessa forma? Entre dois seres que mal se conhecem. O amor por tanto não motivou nada. Talvez o desejo sim. – eu praticamente cuspi as palavras, esse garoto não sabia nada.
–O amor não é um sentimento racional, ele acontece de forma que poucos sabem ou sentiram. –  o garoto estava se estressando, me deu vontade de rir, a situação estava ficando divertida.
–Oh, que coisinha doce você é. –falei com ironia, agora eu queria irritar ele. – Sabe professor, li num livro uma vez que o "amor" é uma coisa totalmente psicológica. Você ama o que te faz bem. Você ama o que dá prazer em você. Você nunca pensa no outro e sim nas coisas que ele te proporciona. E você consegue se provocar o amor... Tipo, você consegue se obrigar a amar alguém. A conclusão, docinho, é que o amor é algo muito mais racional do que você acha. – falei tudo isso sorrindo e fitando as costas dele eu tive de dar uma risadinha baixa, o garoto cerrou os punhos.
–Se não compreende o amor, não pode ser considerada uma pessoa normal, pois o amor é o sentimento mais redentor que existe em todo o universo e o mais belo também. Ele modela as pessoas para que elas descubram tanto a si mesmas quanto aquele (a) que o cativa. Se você não sabe disso, não precisava ter nem se dado ao trabalho de argumentar. – ele falou e respirou fundo depois.
–Oh! Romeu, Romeu! Mas porque és tu Romeu? – depois de citar esse trecho de Romeu e Julieta dei uma pequena risada carregada de ironia. – Eu sei o que estou falando. É por isso que estou falando. Realmente o amor modela as pessoas, elas se tornam obsessivas, ciumentas, controladoras e – Droga, minha voz falhou um pouco. – violentas. É isso que o amor é... Um sentimento destrutivo. – o garoto não respondeu. Será que ele era tão lento assim? Decidi que iria ajuda-lo, então completei minha frase – Tenho pena de pessoas que acham que o amor muda alguém para melhor. São pessoas iludidas, que provavelmente vivem em sofrimento. Esperando o "amor" aparecer.
–Sentimento destrutivo? Pessoas iludidas? – Ele riu sem humor algum. – Você não sabe mesmo do que está falando. O amor tem realmente a capacidade de mudar pessoas para melhor, sei disso mais do que imagina. Você não sabe do que está falando.
– Parece que quem não sabe algo aqui é você... Você já ''amou'' alguém, querido? Se sim sabe do que eu estou falando. Não acredite nesses livros românticos bobos. Eles são cópias da "lindíssima" idealização do amor. – Esperei que ele respondesse, tive de ajuda-lo de novo, por que a resposta não veio - Só para constar que eu não estou falando do amor de pais por um filho, ou do amor de irmãos. Estou falando do amor entre duas pessoas, do desejo carnal que há entre os dois e que as pessoas insistem em chamar de "amor".
–O amor é mais que um simples desejo carnal, o amor é se preocupar um com o outro, ficar ao lado da pessoa em qualquer momento que necessitar, compartilhar momentos belos e indescritíveis juntos e sensações que te deixam sem ar, que fazem você ignorar qualquer coisa em volta e só saborear aquilo. Isso é o amor, Srta. Sei-De-Tudo-Sobre-Isso. ­–eu sorri com a resposta dele, estava tudo ficando tão divertido.
–Oh, mas Dr. Do Amor, só posso pensar então duas coisas. A primeira que o senhor é muito otimista ou que o senhor nunca "amou"... Só está repetindo o que leu. Deixe-me presenteá-lo com um pouco de filosofia de vida: O amor é um jogo. Um jogo de interesse e poder. Poder sobre o outro, como tudo na vida. – eu colocava minha voz em tom de falsete e ok, eu estava pegando pesado, mas o garoto estava pedindo por isso praticamente.
–Você que não sabe de nada, já que pensas que tudo relacionado ao amor é um simples jogo de interesse. Amar e ser amado são desejos de todo o ser humano com algum senso de romantismo. Que, pelo visto, você não tem em nenhuma célula de seu corpo. – ele realmente estava com raiva, eu tive de me controlar para não rir e ficar com a cara séria.
–Romantismo?! Estou começando a achar que você nem mesmo leu um livro sobre amor! Já acabou de ler algum livro romântico de Shakespeare? Eles não acabam bem. São tragédias. Se o amor é tão bom assim como o senhor está discursando por que nenhum acaba bem? ­– joguei as perguntas para ele, minha criatividade estava acabando, principalmente por que ele não mudava muito os argumentos. Ele murmurou algo que não consegui entender. Tudo bem, eu iria ajuda-lo de novo. – O senhor é muito romântico, tenho de admitir. Mas isso não muda o fato de que o amor não existe. Imagino que leia bastante os livros do Nicholas Sparks, já que você é tããão romântico. – ele passou as mãos pelos cabelos, mas não me respondeu. Eu não ia deixar ele me ignorar dessa forma, na frente daqueles rostos chocados com a discussão. Então o complemento perfeito de meu discurso veio na minha cabeça e eu o disse sorrindo. –O que te motiva a acreditar no amor?  Ou será que só viu os filmes da Disney e se convenceu que o amor existe?
–É a minha vida. E são minhas crenças. Você não mudará nada. – Ele parou e pensei que tinha acabado, mas quando ia começar a falar ele completou. – Você quer que eu fale então eu vou falar: meu pai foi um idiota cretino por ter deixado minha mãe sozinha pra me criar e cresci escutando que o amor não prestava para nada além de destruir uma pessoa. Mas eu penso diferente, eu acharei o meu amor e mostrarei que ele existe sim e que ninguém pode lutar quando ele aparece. – enquanto ele falava eu cansei da discussão boba, ele não ia mudar de opinião, e os argumentos dele eram muito pessoais e os meus muito espinhosos e baseados em livros de psicologia.
–Enfim, professor essa é minha opinião. –dei um sorriso a ele que também estava tão chocado quanto os outros.
­–Você não pode provar que o amor não existe! – o garoto falou e se virou para mim pela primeira vez. Não pude falar nada, eu fiquei surpresa, tanto quanto ele estava.
Foi então que vi seus olhos. Meu coração acelerou instantaneamente e provavelmente eu corei, mas mantive meu rosto com o ar de superioridade que lhe era característico. Os olhos dele estavam surpresos apesar do resto do rosto não estar. Eu conhecia aqueles olhos azuis, eu os tinha desenhado no meu caderno, aqueles olhos tinham aparecido em um sonho meu. Eu fiquei sem reação pela primeira vez em toda a nossa conversa, ele parecia do mesmo jeito. Eu não reconhecia o resto do rosto, mas aqueles olhos sim. Foi então que veio na minha mente a lembrança, aqueles olhos, foram eles que me salvaram, foram eles que me tiraram do lago. Minha mente, apesar de perturbada formou uma frase que saiu para responder a última sentença que ele proferiu. Eu era orgulhosa o suficiente para não me conter.
–Você também não! – dessa vez minha voz saiu meio falhada e meio acusativa, mas alta o suficiente para que ele escutasse.
Olhamo-nos por mais alguns segundos e depois ele se virou para frente.
O professor continuou a aula normalmente, provavelmente preferiu fingir que nada havia acontecido. Sabia que muitos dos meus novos colegas de classe ainda me olhavam, com toda certeza ainda estavam chocados com a novata que fez uma mini briga com o coleguinha querido deles, mas eu não me importava, mal senti os olhares. Estava preocupada em tentar organizar a bagunça que minha mente formou, maldita consciência, mas eu já sabia o que fazer.


Por:  Letícia Cavalcante