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sexta-feira, 3 de maio de 2013

15 – Kobe – Paixão

Já estava tarde, havia passado o dia inteiro andando pela cidade, o que não é grande coisa, já que faço isso quase todos os dias, mas eu perdi a hora, quando olhei no relógio, já eram dez horas da noite, então decidi ir para casa. No caminho, escutei algumas pessoas comentando algo sobre o Gabriel ter sido preso. Fazia muito tempo que eu não falava com ele, nós nos afastamos bastante desde um tempo atrás, aquele mesmo Gabriel que um dia eu já pude chamar de melhor amigo, mas nosso tempo passou, ele mudou, e eu também, então eu não acho que deveria ficar me preocupando com isso.

Ao chegar em casa, dei comida para o Hades, botei minha roupa para lavar e fui me arrumar para dormir. Enquanto eu arrumava as coisas para a aula de francês, que seria no dia seguinte, eu me lembrei de Georgia, era inevitável pensar nela, desde que nos conhecemos eu não conseguia tirar ela da cabeça, mas me esforcei ao máximo para fazê-lo, eu não podia me apaixonar por essa garota nova, se isso acontecesse, eu me odiaria pro resto da minha vida. Deitei na minha cama de casal, eu tinha uma cama de casal pelo fato de Hades gostar de dormir nela, e ele era a única companhia que eu tinha desde a morte dos meu pais e de Josh, vários pensamentos passaram pela minha cabeça, mas principalmente Georgia, ela era tão linda, e misteriosa... até que os pensamentos foram embora, e os sonhos chegaram.

No dia seguinte, tinha acordado atrasado, me arrumei o mais rápido que pude e fui para a escola. Demorei cerca de 10 minutos para chegar, e o portão já estava fechado, mas, que tipo de pessoa liga pra essas regras? Regras são feitas para serem quebradas, peguei minha mochila, joguei-a para o outro lado do muro, e logo em seguida pulei por cima dele. Corri para a sala, a professora de francês não tolerava atrasos.

Enquanto estava correndo o mais rápido possível pelos corredores eu esbarrei em uma pessoa e caí em cima dela, e quando olhei para aqueles

olhos eu me perdi, eu me senti fissurado,vidrado, não consegui pensar em outra coisa, eu...

- Kobe!

- Ah, oi, Luisa... eu, me desculpa, eu devia estar na aula de francês – eu corei, não sei como tive coragem de falar tantas palavras sem congelar. Olhei em volta, os corredores estavam vazios, só havia eu e ela.

- Tá tudo bem – ela soltou um riso tímido e corou, ela ficava mais linda ainda com vergonha.

- O quê você tá fazendo aqui?

- Eu vim pegar um livro que eu esqueci no meu armário, e você?

- Eu cheguei atrasado. – eu a ajudei a levantar enquanto dizia – você realmente veio aqui só pra pegar um livro?

- Sim, é que, eu... só vim pegar o livro, vamos voltar logo para a aula... – ela estava mentindo, estava muito na cara.

- Você está mentindo, o que houve? Tá tudo bem?

- Não é nada importante, eu só to com alguns problemas.

- Bem, então, e se a gente fosse dar um passeio no bosque para relaxar? –tá bom, eu realmente não sabia como tive coragem de fazer aquele convite, mas eu mesmo precisava dar uma relaxada.

- Você tá maluco? Claro que não, a gente tá em aula.

- E daí? Perder uma aula não vai matar você – sorri para ela e comecei a correr, puxando-a comigo para o portão, então ela começou a rir.

- Você tá realmente maluco.

Então começamos a correr, rezando para que ninguém nos visse fugindo da escola em pleno horário de aula.


By: Yuri Alkimim

sexta-feira, 5 de abril de 2013

14 - Dante - Mary Jane

Mais um dia como todos os outros, eu pensei desanimado.  Eu ainda estava chateado com o que aconteceu na noite anterior. Queria entender a razão de Jorge me ignorar daquela forma.
Fui para a cozinha procurar algo para comer. Não tenho ideia de que horas eram, mas devia passar do meio dia, pois a fome era intensa. Não encontrei nada, então me lembrei do que Jorge havia dito em frente à porta do quarto. Abri o armário e vi o dinheiro que ele tinha deixado.
Pensei em sair para comprar algo, mas a lembrança daquelas pessoas me olhando com piedade me fez desistir. Peguei um copo, enchi de água e tomei. Aquilo gelou meu estômago. Repeti a dose umas duas vezes e fui para a sala.
Joguei-me no sofá e desejei que Jorge chegasse logo com comida. Liguei a televisão, vi que falava algo sobre uma garota que morreu ontem no bosque perto de casa, então entendi o que eram os gritos que ouvi. Também vi que havia acontecido um acidente, e uma garota caiu no lago e quase se afogou, mas por acaso alguém estava lá perto e a salvou.  Nada é por acaso.


Ouvi passos do lado de fora, deduzi que era Jorge, o que me deixou feliz.
Ele abriu a porta e entrou. Jorge me olhou com cara de reprovação e mesmo sem entender perguntei:
– Trouxe algo para comer?
– Não.
Soltei um palavrão involuntariamente.
Jorge se aproximou de mim, me olhou com raiva e deu um tapa forte em meu rosto, que na mesma hora ardeu. Senti um calor subindo e tomando conta do meu corpo. Começaram a descer lágrimas.
– Moleque insolente, eu trabalho, me esforço para manter essa casa. Eu deixei dinheiro, você só tinha que sair para comprar comida, isso é mínimo que você deveria fazer. E dar uma ajeitada nessa casa talvez.
Eu sabia que ele tinha razão. Jorge trabalhava duro, saia muito cedo e não tinha hora para voltar. A casa estava de ponta cabeça, suja e abandonada, desde que nossos pais morreram, ela não foi limpa. Não me custaria mesmo arrumar.
Mesmo entendendo não consegui controlar a raiva, eu estufei o peito, e pensei em por pra fora tudo que eu estava sentindo sobre ele me ignorar, mas ao invés disso eu virei e sai. Bati a porta com tanta força que senti o tremor das paredes.
Fazia tempo que eu não saia para a rua.
Era noite, e as lagrimas em meus olhos deixavam as luzes dos postes ofuscadas. Eu estava andando depressa e meio cambaleando. Não sabia para onde eu iria, estava apenas seguindo meus instintos.
Eu havia me esquecido como o silencio das ruas noturnas de Desdém era ensurdecedor.
Desdém... Eu não podia parar de pensar em como eu a detestava. Eu não odiava apenas a cidade, eu me odiava também. Eu odiava o que tinha me tornado depois de tudo que aconteceu. A cidade sempre foi amaldiçoada, mas eu só me dei conta disso quando a desgraça me alcançou.
A melhor parte de mim morreu em Desdém, a minha inocência. Toda aquela felicidade e inquietude que uma criança pode ter eu perdi. Não tenho mais perspectivas. A cidade se alimenta dos sonhos e da esperança de todos e tira o bem mais valioso de cada um.
E culpa é dos próprios moradores, se eles não alimentassem essa cidade idiota, nada disso aconteceria. Enquanto pensava nisso, lágrimas de fogo caiam e eu andava cada vez mais rápido.
Percebi que um pouco longe havia um obstáculo em minha frente. Minha vista estava embaçada, sequei os olhos para tentar enxergar melhor.
Era uma pessoa. Senti um gelo na barriga, quanto tempo fazia que eu não via alguém diferente de Jorge?
Eu ia atravessar rua quando ela falou comigo. Uma voz doce, mas de garota com atitude.
– Está tudo bem com você? – ela disse tentando ver meu rosto.
Eu respondi que sim. Na verdade a minha vontade era de ignora-la ou responder grosseiramente, mas não pude. Quando eu levantei a cabeça para olha-la, me deparei com uma beleza contrastante. Apesar de estar escuro eu podia ver os reflexos alaranjados dos seus cabelos. Os olhos eram em um tom de verde intenso, e passavam uma ternura e delicadeza. Eu não conhecia muitas garotas, mas nunca havia visto uma tão linda quanto esta. 
– Meu nome é Lutrícia Sena e o seu?
– Dante Rodrigues – engoli seco, pois sabia que ela me reconheceria por causa do sobrenome.
Percebi a reação da garota, mas ela, diferente de todos, não foi inconveniente de comentar o assunto.
– Você não estuda? Nunca te vi na escola.
– Não, eu parei.
Por um tempo fiquei olhando para os olhos dela. Senti um pouco de vergonha pelo corte que eu havia feito no meu cabelo, passei a mão tentando ajeitar.
– Corte legal, - ela disse e sorriu. Eu não sabia o que dizer então retribui o sorriso.
– Não devia andar sozinha a noite Lutrícia, e muito menos ficar por ai conversando com estranhos. – disse o garoto que eu não conhecia. Eu não escutei ele chegar, provavelmente porque estava hipnotizado com a beleza da moça.
– Esse é Dante Rodrigues, acabamos de nos conhecer. – Lutrícia disse fazendo um gesto de apresentação. – Dante, esse é Gabriel, – acenei com a cabeça.
– Como eu estava dizendo, não é bom você ficar na rua à essas horas Lutricia, ainda mais depois de tudo que aconteceu. – Gabriel disse me ignorando, ele parecia abalado, mas isso não era motivo para me tratar daquela forma.
– Você tem razão, é melhor eu ir. – ela disse se dirigindo a mim com uma expressão séria. – Eu sou voluntária na Biblioteca Municipal, vou pra lá depois da aula, se você quiser conversar pode me encontrar lá.
Eu assenti.
– Eu te acompanho até em casa Lu. – ele falou com um tom de superioridade.
Lutrícia fez um gesto com a mão e se foi.
Me senti um pouco mal em deixar a garota ir embora com aquele cara. Havia algo nele que eu não engolia. Pode parecer loucura, mas eu senti ciúme. Apesar de não ter nada com Lutrícia, naquele momento toda a atenção dela estava voltada a mim.
Lutricia era realmente muito bonita,e ela me lembrou Mary Jane.
Eu nunca gostei muito de ler, mas Jorge adorava HQ’s. Lembro me de um dia, alguns anos atrás, Jorge me mostrou sua coleção de quadrinhos, entre eles um chamado “Homem Aranha”. Folhei as páginas da revista quando me deparei com uma linda garota, desenhada em traços sofisticados, com sombras e efeitos. Os cabelos eram ruivos e os olhos claros, rosto delicado e curvas tentadoras. Perguntei a Jorge quem era e ele respondeu com uma suspirada.
– Mary Jane. É linda não é?
– Sim, quero casar com ela – eu disse arregalando os olhos. Nós dois começamos a rir. Em geral não tínhamos muitos momentos como aquele, nós não compartilhávamos dos mesmos gostos.
Jorge sempre foi um ótimo exemplo, gostava de ler e estudar, nunca deu trabalho para meus pais. Pensando nisto, imagino como deve ter sido doloroso para ele abandonar os estudos, ele sempre sonhou em ir para a faculdade.
Eu sempre fui rebelde e mimado, meus pais gastavam muito tempo comigo, sempre eram chamados na escola por causa das minhas brigas e bagunças. Isso deixava o Jorge com ciúme, por mais que ele não admitisse.
Fisicamente nós nos parecemos muito, é impossível alguém falar que não somos irmãos. O formato dos nossos rostos é praticamente igual, parecem ter sidos desenhados com a régua, traços retos e agressivos. Os cabelos no mesmo tom, um castanho escuro, que puxamos do nosso pai.  O que nos diferenciava eram os olhos, os meus eram da minha mãe, e os do Jorge pareciam mais com os do papai.
Eu estava tão perdido em pensamentos que nem percebi onde estava, eu já tinha andado um tanto e chegado à entrada do bosque, resolvi entrar para passar o tempo já que não pretendia voltar para casa. .
Fui entrando apoiando-me nos troncos para não cair. Eu estava com medo, mas apesar de estar escuro, a luz da lua iluminava o contorno das árvores e caminhos, o que me confortava um pouco.
Depois de caminhar certo tempo cheguei a um lugar que conhecia bem, era uma área bem mais aberta, onde o papai sempre nos levava para brincar quando crianças. Logo esbarrei em alguma coisa. Estava bem à minha frente e bateu na minha barriga. Passei as mãos e logo reconheci. Era uma balança feita de pneu, certamente a mesma que costumávamos balançar. Lembro perfeitamente da cena, eu sentado na balança, ainda era bem pequeno, meus pés nem alcançavam o chão, papai me empurrando e Jorge sentado no chão. Eu me divertia muito, repetia incansavelmente:
– Mais forte papai, mais forte!
E eu fingia que estava voando, sentia-me um super herói. Jorge não parecia se divertir muito, ele ficava jogando pedrinhas no lago à sua frente. O lago... Aquele lago azul claro, que era reflexo do céu nas minhas lembranças, nem parecia o mesmo de agora. Tão negro e sombrio, com exceção da luz que surgia bem no centro dele. A lua refletia no lago, ela estava perfeitamente redonda, e dava a impressão de que estava encostando na água e derretendo. 
Me aproximei um pouco e admirei a imagem, que por alguns instantes me hipnotizou.
Ouvi alguns barulhos vindo do meio das árvores, me assustei e quase desequilibrei. Foi por pouco, tão pouco que até ouvi o barulho de algumas pedrinhas caindo, certamente era uma daquelas que Jorge costumava atirar ali.
Lembrei-me do que havia acontecido no bosque no dia anterior, e corri para me esconder. Escolhi uma árvore bem larga, uma das mais próximas dali. Ouvi o barulho de folhas amassando se aproximar, e do meio das árvores saiu Jorge. Ele caminhou até a margem do lago, ficou um tempo olhando a luz da lua, assim como eu tinha feito antes e se sentou. Onde eu estava escondido, dava para vê-lo exatamente de perfil. Os contornos de seu rosto estavam iluminados, me esforcei um pouco para ter certeza, mas ele parecia estar chorando. Ele pegou algumas pedras e começou a atirar. Algumas quase que sem força alguma, outras ele enchia o peito e parecia se esforçar para atirar o mais longe possível. 
Eu não sabia o que fazer, não queria falar com ele naquele momento, até porque comecei a me sentir culpado por termos discutido. Mas também eu não podia ir embora, pois Jorge escutaria e viria atrás de mim. A única opção era esperar até que ele fosse, e então ir embora logo depois, assim quando eu chegasse em casa ele já estaria dormindo e eu não precisaria enfrentá-lo.
Depois de um tempo a posição foi ficando cada vez mais desconfortável, e eu estava me esforçando para não me mexer muito. Jorge já tinha parado de jogar pedras, agora ele estava sentado, abraçando as pernas e com a cabeça abaixada. Logo depois ele deitou no chão com os braços atrás da cabeça e ficou imóvel. Ele dormiu.
Eu não contava com isso, mas já que ele havia adormecido, resolvi ir embora. Fui andando com todo o cuidado para não fazer barulho e acordá-lo.

Quando abri a porta tive uma surpresa, a casa estava toda revirada, móveis tombados, coisas espalhadas e quebradas. Atentei-me ao vaso de louça que ficava encima da mesinha perto da televisão, estava estilhaçado, sem possibilidade mínima de recuperação. Era o vaso favorito da mamãe, ele abrigava umas florzinhas, eu não sei o nome, mas eram pequenas e rosas, e cresciam bem próximas ao caule. Agora elas estavam esparramadas junto a terra escura no chão.
O que havia acontecido? Será que Jorge tinha perdido o controle quando sai, e fez toda aquela bagunça, ou será que outra pessoa havia entrado em casa, já que a porta estava destrancada.

Eu não iria arrumar tudo aquilo naquela hora, então fui tomar um banho quente antes de dormir. Meu corpo estava dolorido por ter ficado tanto tempo na mesma posição, e eu estava com a cabeça a mil. Aquela discussão com Jorge, a garota que eu havia conhecido, as lembranças... Tudo  aquilo estava borbulhando na minha cabeça. Entrei embaixo do chuveiro, liguei a água quente e deixei escorrer. Quando me senti relaxado, sai do banho, subi para meu quarto e me joguei em minha cama.


Por: Luna Gabriella

quarta-feira, 3 de abril de 2013

13 – Bernardo – Sentimentos


Minha mãe, que normalmente chamava de Laura, chegou por volta das 11h30min da noite horrorizada.
Pausei meu jogo – em meu Playstation – e me aproximei calmamente perguntando:
                – O que houve?
– Um acidente no centro da cidade, seguido de explosão, um garoto correu desesperado e, por ter invadido a cena, foi preso... Foi terrível!
                Franzi a testa surpreso, três desastres em um dia... Hoje se tornaria um dia lendário para Desdém.
Laura olhou-me estranhamente.
– Você não está assustado ou receoso com tudo isso? – perguntou.
– Não envolve a mim. – falei dando de ombros e fui até a cozinha, estava a fim de beber.
Abri a geladeira e peguei uma cerveja, de vez em quando ter uma mãe alcoólatra tinha suas vantagens, como ter sempre cerveja na geladeira e whisky nas garrafas de academia*.
– Desde quando você é tão insensível? – havia me esquecido que Laura não conhecia este meu lado, pois eu evitava conversar com ela.
– Desde quando você se importa? – rebati abrindo minha cerveja e tomando um gole.
Ela recuou um passo.
– Em sempre me importei com você, sou sua mãe!
Revirei os olhos.
– Se você realmente se importasse comigo, você saberia que, quando eu fugia de casa, eu ia até Claudia, ela cuidava de mim como se fosse minha mãe, pois você nunca pensou em ser uma. – falei indiferente. – Que ao invés de cuidar de mim, você afogava suas mágoas em bebidas por um homem que nem ao menos deu sinal de vida depois que desapareceu, que não se importou se ficaríamos bem ou não, que sumiu como se não tivesse deixado nada de importante para trás.
Ela ficou paralisada, mas continuei falando:
– Então, antes de dizer que se importa, pense se isso é a verdade. – falei enquanto terminava minha cerveja e ia pegar outra. – Pois não basta se nomear mãe, tem que agir como uma.
Com uma cerveja em cada mão, subi para o meu quarto sem me importar com a sua reação, afinal ela nunca se importou com a minha quando eu a encontrava apagada no sofá cheirando a vodca.
Observação: eu tinha oito anos nessa época.
Encerrei-me em meu quarto e abri mais uma cerveja. Eu sei que não foi certo jogar na cara dela tudo o que aconteceu, mas eu tinha que falar o que estava acumulado em minha mente há muito tempo antes que eu surtasse com tudo isso.
Liguei meu computador e fui mexer em minha playlist de favoritos. Liguei o aleatório e a primeira música que tocou foi Don’t Go do Bring Me The Horizon.
Eu adorava a letra dela, digamos que dizia exatamente como eu me sentia. Precisava urgentemente de uma pessoa que me salvasse desse inferno, dessa desolação que sempre estou... Precisava de uma pessoa que não fosse embora.
Acabei pegando meu caderno de desenho e, enquanto bebia minhas cervejas, delineava o rosto da garota, Vitória. Seus cabelos ruivos haviam me encantado tanto quanto seus lábios, me fazendo imaginar como seria beijá-la...
Sacudi a cabeça fechando abruptamente o caderno. Eu não sabia o porquê de meu interesse nela, eu a havia visto somente hoje, e desmaiada ainda por cima!
Algo me dizia que ela mudaria algo em minha vida, mas se era para melhor ou para pior, eu sinceramente não sabia dizer.
...
Passei sete dias sem falar com Laura. Só a ouvia sair de manhã para trabalhar e voltar às onze horas da noite.
Nesse meio tempo eu comecei a tocar um pouco em meu piano e notando que eu estava um tanto enferrujado, afinal eu havia aprendido com Claudia aos sete anos e parei de tocar aos quinze.
No domingo ela chegou em casa às oito horas – ela não trabalhava nos domingos, então eu não tinha a mínima ideia de onde ela havia ido – e se impressionou ao me encontrar sentado em frente a piano tocando a mais doce das melodias feitas por mim.
Ela se aproximou do piano e ficou me observando até eu tocar as últimas notas.
– Já fazia tanto tempo que você na tocava. – comentou ela baixinho.
– Eu sei. – falei simplesmente.
Eu queria falar para ela que eu sentia muito pelas coisas rudes que eu havia dito, mas as palavras não saíam, elas travavam em minha garganta como se eu não tivesse permissão de proferi-las.
Acabamos ficando em um clima estranho, então Laura quebrou o silêncio.
 – Tenho uma novidade para lhe contar. – comentou ela indo para a cozinha.
A segui curioso.
– E o que seria?
– Eu entrei no AA. – disse sorrindo. – Agora eu quero sair disso, quero largar isto que só me fez infeliz e a você também.
Arregalei meus olhos em surpresa.
 Laura no Alcoólicos Anônimos? Parece até uma piada.
Todos sabiam que ela tinha um pequeno grande problema com bebidas, Laura ir ao AA é o eufemismo do ano.
– E você acha que irá realmente adiantar? – perguntei.
Ela deu de ombros e pegou uma jarra de suco da geladeira.
– Se eu tiver força de vontade, conseguirei. – disse simplesmente.
– Se você acha... – acabei deixando para lá, era a vida dela afinal de contas.
Fui em direção a escada, mas Laura me chamou.
– Bernardo, soube que você não foi aos três primeiros dias de aulas, então amanhã você irá. – disse decidida.
Olhei para ela abruptamente.
– Como? – eu acho que ouvi errado.
– Você acha que faltando à aula vai conseguir sair de Desdém? – perguntou diretamente.
Estreitei meus olhos, mas a deixei falar.
– Pelo menos termine o ensino médio, depois você pode fazer o que quiser, afinal, terá dezoito anos.
Suspirei, ela não iria desistir.
– Ok, amanhã irei à aula. – falei cedendo.
Ela sorriu.
– Que bom.
Virei e subi as escadas, eu sabia que Laura estava tentando se aproximar de mim, mas eu não conseguia deixá-la entrar. Acho que depois de tanto tempo acostumado com ela me ignorando, acabei não sentindo mais falta de sua atenção.
Deixei minhas coisas devidamente organizadas para amanhã e me deitei, meus pesadelos haviam parado desde que salvei Vitória do lago, e agora a única coisa que sonho é com aqueles cabelos ruivos balançando contra o vento e saber a cor de seus belos olhos.
Pensando nisso, adormeci.

                                                                 ...
Acordei com meu travesseiro todo molhado de suor. Era só eu comentar que ele havia parado que o pesadelo voltava com força total.
Olhei a hora em meu celular, eram 06h15min da manhã. Então levantei-me e fui tomar um banho, pois ainda estava com os efeitos do pesadelo.
Coloquei uma calça jeans surrada, uma camisa azul escrita “Fuck All” e meus velhos All Star. Desci nada animado e Laura estava saindo.
– Deixei café pronto pra você. – avisou-me e saiu.
Fiz umas torradas rapidamente para mim e servi-me um pouco de café. Consegui terminá-lo em quinze minutos.
Peguei meu Ipod e meus fones de ouvido, pois se eu iria passar pelo centro da cidade, teria que ser com distração. Liguei o Ipod e coloquei Not Alone do Red, as letras dessa banda eram extremamente belas, e esta música em especial tocava algo dentro de mim que eu não sabia explicar...
Saí chaveando a porta e fui vagarosamente para a escola.
Senti vários olhares em minha direção, mas os ignorei, era sempre assim quando eu passava pelo centro. Quando se tem uma reputação como a minha por aqui, é difícil desmanchá-la ou refazê-la, é por isso que a deixo como está, o povo de Desdém adorava falar de mim. Quer dizer, eles gostavam de falar de qualquer um que não se encaixe aqui.
A minha escola era velha, descuidada e sem graça, tinha uma torre no meio do prédio com um relógio – aquilo quando tocava era um caos para os tímpanos.
Entrei e vi todos os alunos entrando na sala, então tirei meus fones, entrei sem olhar para os lados e me sentei no lugar habitual. Vi as pessoas olhando para o fundo da sala e um grupinho de garotas escandalosas falando e rindo, e Laura ainda queria que eu terminasse o ensino médio.
Como diria Funérea Depressão: Ai que infortúnio!
Bateu e logo o professor Augusto entrou na sala. Hoje tinha literatura, eu ainda não tinha pegado o horário deste ano, e nem iria.
Ele largou seu material em sua mesa e foi direto para o quadro escrevendo duas frases e perguntou a quem pertencia:

“Tarde demais o conheci, por fim; cedo demais, sem conhecê-lo, amei-o.”

“Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor.”

Nem levantei a mão, apenas respondi:
– Shakespeare, professor. – falei rapidamente.
                –Muito bem, está correto. –disse o professor sorrindo animadamente. –Agora, alguém aqui sabe me dizer que conceitos a primeira frase emprega, ou quer dar sua opinião a cerca desse glorioso sentimento que é o amor? – Augusto falou empolgado.
Como ninguém respondeu, uma garota no fundo da sala falou:
–Respondendo a segunda pergunta, eu acho que foi a loucura, professor, o que mais motivaria alguém a falar assim? – falou a garota asperamente.
–Eu já acho professor que quem falou esta frase estava vivenciando o mais puro e verdadeiro amor. – rebati um tanto chocado.
–Na primeira frase, por exemplo, fica explicito que eles mal se conheciam. Como pode o ''amor'' existir dessa forma? Entre dois seres que mal se conhecem. O amor por tanto não motivou nada. Talvez o desejo sim. – ela praticamente cuspiu as palavras.
Essa garota era boa em argumentar... Mas não comigo dentro da sala.
–O amor não é um sentimento racional, ele acontece de forma que poucos sabem ou sentiram. –  disse ficando levemente estressado.
Neste momento a nossa discussão acabou virando algo para atingirmos um ao outro e não sobre o conteúdo da aula, até envolvi meus problemas pessoais nisso tudo... Que garota insuportável!
Teve uma hora que ela mesma tentou dar um fim nela.
–Enfim, professor essa é minha opinião. – disse a garota, provavelmente sorrindo.
Não me aguentei, acabei virando para falando.
– Você não pode provar que não existe! – falei e acabei paralisando em surpresa.
Aqueles cabelos ruivos, os lábios vermelhos, a pele clara... Eu a conhecia.
A última coisa que encarei foram seus olhos, que eram lindamente amarelos. Agora eu tinha como delinear seus olhos.
Vitória.
Ela ficou sem reação quando me viu e corou levemente, só não entendi o porquê do reconhecimento em seus olhos.
Ela levantou o queixo em superioridade e falou:
–Você também não! – a voz saindo tanto falhada quanto acusativa, mas alta o suficiente para que eu a escutasse.
Ficamos nos encarando durante algum tempo e eu interrompi nossa troca de olhares virando para a frente.
O que eu iria fazer convivendo com ela até o final do ano?
O meu destino estava me pregando uma peça, só podia ser.
                                                              ...
Assisti às outras aulas sem sequer olhar para o fundo da sala. Eu senti o olhar dela em minhas costas e fiquei tentado a olhar por cima de meu ombro, mas me controlei e continuei a olhar para o quadro.
Na hora do intervalo eu simplesmente sumi de sua vista, indo direto para a torre do relógio. Tinha uma escada por dentro que me permitia um pouco de paz dentro disto... E que me permitiria um tempo longe de Vitória.
Eu ainda não acreditava que ela estava em minha sala, que teria que vê-la cinco dias por semana e provavelmente nos fins de semana, pois Claudia morava em minha rua. Minha vida definitivamente havia virado de cabeça para baixo.
Bateu e eu voltei vagarosamente para a sala, queria dar um tempo para que Vitória entrasse antes de mim e eu não precisasse cruzar com ela agora. E acabou sendo um plano que teve sucesso.
Assisti as duas últimas aulas e, quando bateu, fui o primeiro a sair da sala. Liguei meu Ipod e começou a tocar Frozen do Within Temptation.
Estava caminhando tranquilamente até notar alguém caminhando ao meu lado.
Tirei os fones e olhei para o lado. Era Vitória.
– Ah... Olá? – disse franzindo a testa.
– Olá. – ela falou, dando um enorme sorriso.
Aquele sorriso me fascinou, mas mantive meu rosto neutro.
– Por acaso quer fazer mais algum comentário sobre o assunto da aula de hoje? – perguntei irônico.
Ela faz uma careta rápida, mas logo sorri novamente.
– Na verdade não é isso. É que eu queria lhe agradecer.
Eu parei. Ela sabia que fui eu? Ou Claudia comentou algo? Terei que sondar.
– Agradecer o que? – perguntei fingindo confusão.
Ela para um pouco mais na frente e vira de lado para mim. Ela para de sorrir e os olhos dela se abrem um pouco mais, ficando mais brilhantes.
 Ela faz um biquinho e diz:
 – Ah, pela história do lago, sei que foi você Bernardo. – E volta a sorrir de lado.
Eu arregalei os olhos levemente.
– De onde você tirou essa certeza toda? – perguntei. – E outra, como sabe meu nome?
–Claudia. – disse simplesmente e deu uma pequena risada.
Suspirei cedendo.
– Claudia irá ficar me devendo depois dessa.
Ela começou a rir.
– Eu sabia que era você, e obrigada novamente. – ela ficou com um sorriso radiante no rosto.
O sorriso dela brilhava mais do que as estrelas em seus melhores dias...
Situe-se Bernardo, repreendi-me mentalmente.
– Era o melhor que eu poderia fazer. – disse dando de ombros e voltando a caminhar. – Simplesmente era o certo.
 – Entendo. Só não digo que faria o mesmo por que, bom, eu iria acabar morrendo junto com a pessoa. – e riu, provavelmente pensando na cena,
Ela era tão extrovertida, legal... Acabei sentindo um sorriso se espalhar pelo meu rosto.
– Você é mais legal quando não está discutindo, sabia? – deixei escapar.
– Sabia sim. – ela fez uma careta, balançou a cabeça negativamente como se tivesse afastando um pensamento e voltou a sorrir. – Você também não é nada chato.
– Quando não está discutindo – completou rapidamente.
– Só não espalhe isso por aí, tenho uma reputação a manter. – falei brincando.
O que estava acontecendo comigo?
Ela riu um pouco.
– Bem, eu ainda não tenho a quem contar. – disse pensativa. – E penso que todas as pessoas por aqui tenham uma.
Fiquei sério pela mudança de tema.
– Sempre temos uma reputação, as pessoas têm um grande talento de julgar ao próximo por aqui. – disse a ela.
– Acho que logo, logo terei a minha. – ela riu. – E não será das melhores.
– Provavelmente, ainda mais sendo sobrinha de Claudia. – comentei.
– Com certeza. – e sorri novamente.
Rezo aos céus para que Desdém nunca tire este sorriso dela.
– Ei, não deveria ser tão sério, é mais bonito sorrindo.
Passei a mão pelo cabelo constrangido.
– Ah... Obrigado? – falei, provavelmente estando vermelho.
O que esta garota está fazendo comigo?
– É o que se diz quando alguém faz um elogio. – disse sorrindo. – Não se acha bonito?
Antes que eu respondesse, ela falou:
– Não se subestime.
Respirei fundo.
– Digamos apenas que eu nunca pensei nisso.
– Ah, sim... – ela balançou a cabeça positivamente. – Reconheci você pelos olhos. – falou ela mudando de tema novamente.
Franzi a testa surpreso.
– Pelos olhos? Mas como se você estava desacordada quando lhe tirei do lago?
– Não sei, eu só me lembro dos seus olhos. Talvez eu tenha acordado em algum momento. – disse pensativa. – Mas de qualquer forma é a única coisa que me lembro e, bom, eu fiquei de...
Vitória parou de falar.
Eu olhei para o lugar onde ela encarava e vi um garoto, ele deveria medir 1,87m, tinha cabelos cor chocolate e olhos acinzentados.
Não sei o que me deu exatamente enquanto ela abria a boca em surpresa ainda olhando para o garoto e saia correndo, deixando seus cadernos caírem no chão e se abrirem em uma página onde estavam desenhados olhos azuis... Os olhos que encaro todo dia quando olho no espelho.
Algo em minha mente me disse para sair dali, e foi o que eu fiz, sem dar uma única olhada para trás.

“Quando o destino junta duas pessoas, não há nada que as separe”

(*http://www.visuartbrasil.com.br/imagens/visuartbrasil.com.br/produtos/Linha%20Vip/Garrafas_academia_-_500ml_e_600ml.jpg)

Por:  Djessica Millage

sábado, 23 de março de 2013

11 - Lutrícia - Vultos

Não acredito! Era tudo um pesadelo. A morte de Raquel, o lago, a escola, a minha vida. Tudo um pesadelo. Como estou feliz em dizer que isso tudo acabou. Ao menos era o que eu queria lhes contar, mas a realidade, infelizmente, não é essa.
Estou sozinha, e não sei como enfrentar. Isso resume a minha vida. Parece cocaína, mas é só tristeza. Isso resume o meu momento.Cheguei a casa em lágrimas, ainda bem que minha avó não estava lá. Bendita missa. Subi as escadas correndo e soluçando. Abri a porta de meu quarto, a casa estava tão quieta.
Entrei, liguei o computador, coloquei uma play list para tocar e deitei na cama. As imagens de Raquel ensanguentada vinham-me a mente toda hora. Eu não gostava dela, mas a vi morrer.
Imagine o que Gabriel estava sentindo, eles eram muito amigos. Estavam sempre muito perto um do outro.
Estava eu já quase pegando no sono quando ouvi um barulho lá de fora - bruuuumm. Parecia barulho de coisas explodindo. Após o barulho ouvi gritos desesperados e choros.
Peguei meu roupão lilás, coloquei-o sobre meus braços e calcei meu chinelo de dedo. Desci as escadas. Andei um pouco até chegar à praça. Eu estava muito preocupada e com receios.
Muita coisa acontecendo a Desdém muito rapidamente. Morte, afogamento da menina nova, e agora esse barulho.
O que pode ser isso?
Quando cheguei ao meio da praça pude ver o que era.
Vi um vulto, do tamanho de um ônibus, em chamas. Cheguei mais perto.
O vulto é um ônibus. E o fogo passou, ou melhor, se transformou. Transformou-se em explosão. Ou melhor, antes do ônibus explodir, o que explodiu foi uma viatura.
Foi quando eu entendi. A viatura era do chefe de policia. Estava em frente a casa dele. E o ônibus, era do acampamento infantil da cidade.
Estavam todos em volta chorando, acuados ou tristes.
Vi de relance Bianca e Gabriel, não juntos, mas os vi. Bianca indo pra sua casa e Gabriel sendo preso. Acho que por causa do ônibus, sua irmã, Gabriela, fazia parte do acampamento.
Foi quando, sem olhar pra trás, fui embora. Não queria ser mais testemunha de mais nenhuma tragédia.
Subi aquelas escadas de madeira escura como se fosse para meu próprio enterro. Deitei em minha cama e dormi. Acordo assustada. Meu despertador berrando – pipipipi. Eu estava atrasada pra escola. Primeira vez que isso acontecia desde sempre.
Arrumei-me correndo. Troquei de roupa, penteei-me, calcei meus tênis, peguei o material e desci as escadas.
Fui, em passos rápidos, em direção da escola. Em passos normais, chegaria em 15 minutos. Mas, como estava com pressa, com sorte, chegaria em 7 minutos. Passei pelo centro comercial de Desdém, as pessoas que estavam abrindo suas lojas me olharam assustadas. Sempre era eu quem chegava primeiro.
Cheguei à escola, mas perdi a primeira aula, história, afinal, já eram 7:30. Eu tinha que esperar a próxima aula.
Eu estava sentada no banco perto do portão da escola. Lia um livro de ficção, J.K Rowling, enquanto esperava.
O inspetor de alunos se surpreendeu a me ver e não ver Gabriel. Mas deixou-me passar. Entrei na segunda aula, infelizmente, eram duas de matemática, odeio matemática.
A Senhora Eliane Costa me odiava. Sempre que possível, pegava no meu pé.
E eu ainda sentava na carteira mais próxima da mesa dos professores, o que piorava tudo.
Eu sempre faço de tudo pra que não haja um pedaçinho do meu rabo pra Senhora Costa pisar.
Passaram as aulas, eu na minha como sempre, agora era intervalo. Eu não estava com fome, como sempre no horário do intervalo. Então, peguei meus fones e sentei-me à mesa da lanchonete que eu sempre sentava, no pátio.
Gabriel não estava lá. Nem ninguém ligado ao acampamento. Isso me assusta.
Fomos logo liberados, a professora de biologia e nem o de química foram. Nem passei em casa, fui direto à biblioteca, queria partir desse mundo nojento, queria ir pra um universo paralelo que eu amo: livros.
Nesse tempo, não conversei com ninguém, não encontrei ninguém, só fiquei lá, dando baixa em livros, emprestando livros, guardando livros.
Demorei um pouco mais de propósito, queria chegar à casa de noite.
Quando estava chegando a casa, vi um garoto. Devia ter uns 17, 18 anos. Ele não tava bem, eu tinha que ajudar.
Ele era bonito. Tinha o cabelo meio desarrumado e uma camisa preta e estava em lágrimas, com feição de ódio ao rosto. Chamou-me a atenção. Isso nunca ocorrerá antes.
-Está tudo bem com você?-precipitei ao perguntar
-Sim, estou bem, responde o garoto. -Meu nome é Lutrícia Sena. E o seu?-resolvo perguntar, meio curiosa. -Dante. Dante Rodrigues. Foi quando me lembrei da historia do garoto.

Por: Gabriel Lopes

sexta-feira, 15 de março de 2013

10 - Bianca - Cores

   – Não ! Me solte !
   – Você não tem pra onde correr !
   – Socorro!!!
   – Cale a boca, sua vadia!
   – Nããããão!!!!
                                                                                        … 
   Acordei assustada. Olhei em volta e percebi que estava confortavelmente em meu quarto, não na floresta como segundos atrás.
   Meu travesseiro estava molhado. Levei a mão à testa, estava encharcada de suor, mas estranhamente gélida. Esfreguei-a, minha cabeça doía.
   Eu estava frente à entrada da floresta, descalça. Ouvi galhos sendo partidos sob fortes passos. Sabia que devia voltar para casa. Não só pelo perigo que a floresta oferecia, mas também pelo horário. Já se passava das onze horas da noite, e a essa hora, os poucos marginais de Desdém faziam a festa pelas ruas da cidade.
   Os passos se aproximavam cada vez mais da abertura, mas eu não recuei, ao contrário, respirei fundo e adentrei na mata.
   Tudo vinha como um borrão. Esforcei-me para lembrar do sonho por completo, mas nada vinha, então desisti. Fiz minha prece matinal e desci. O andar principal estava silencioso, meu pai já havia saído para trabalhar. Cada pedacinho da minha casa tinha o toque sensível de minha mãe. Cada cortina, cada tela pendurada nas paredes, cada flor pintada à mão na escadaria.
   Meu olhos arderam de acordo que a imagem do rosto da minha mãe foi se formando em minha memória. Para afastar a mágoa que senti chegando, corri para a estante e peguei o primeiro CD que alcancei, joguei-o no som e dei play. Assim que ouvi ‘It’s Britney, bitch!’ me lancei na cozinha e comecei a preparar meu café da manhã no ritmo da música. Em certo momento, um antigo copo de uma das coleções de minha mãe escorregou entre meus dedos molhados e partiu-se em mil pedacinhos brancos de porcelanato.
   – Merda! – berrei, odiando a mim mesma por ser tão desastrada em alguns momentos – Olha só que “cagada” eu fiz! Se a minha mãe estivesse aqui eu já t…. – calei-me.
   “Se mamãe estivesse aqui aqui eu não seria órfã. Se mamãe estivesse aqui eu não estaria fazendo mseu café da manhã.”, pensei.
   “Esquece, Bianca. O que você pode fazer é catar tudo isso antes que seu pai chegue. E caladinha”
   Agachei-me para recolher os cacos maiores, a fim de deixar apenas os minúsculos para serem varridos. Ao abaixar, percebi que meus pés estavam sujos. Achei estranho, mas manti minha atenção voltada à não cortar meus dedos no vidro.
   Após tomar meu café, fui para a escola, e mais uma vez Anne não compareceu, o que me deixou preocupada e decidi passar em sua casa no dia seguinte para ver se estava tudo bem.
   As aulas se arrastaram com o tédio habitual. Como sento na última cadeira, no cantinho da última janela da sala, tenho o luxo de simplesmente ignorar tudo o que os professores falam. Hoje deram avisos sobre nos mantermos seguros, não andarmos sozinhos, não saírmos de casa depois que anoitecer e (me mate!) não frequentarmos o bosque.
   – Ah, por favor ! Vocês não acham que estão sendo patéticos demais? Mesmo pra vocês, que são normalmente patéticos? – perguntei, inconformada.
   A Sra. Monteiro, professora de geografia não é conhecida por sua simpatia ou afeição por nós, alunos. Seus olhos, assim como de todos os outros presentes na sala, viraram-se para mim, frios e curiosos.
   – Como é, senhorita Bianca ? – Ela ajeitou seus óculos-fundo-de garrafas e crispou os lábios.
   – É que eu penso ser exagero todas estas coisas. Vocês estão fazendo tempestade num copo d’água – respondi, com um tom menos arrogante.
   A Sra. Monteiro tossiu, ajeitou os óculos de novo e sorriu com doçura.
   – Minha querida, eu entendo você questionar as regras, porque também já fui adolescente e sei como é divertido quebrar as regras. Mas, acima de todos, a senhorita devia se importar com tais normas – ela veio caminhando em minha direção, sempre um sorriso no rosto – A sua mãe, por exemplo...
   – Não-fala-da-minha-mãe – sibilei.
   Ela sorriu, com falsa pena e continuou o seu discurso.
   – Sua mãe foi BRUTALMENTE assassinada, mas isso não pode te afetar eternamente. A sua mãe morreu porque el...
   – Não fala da minha mãe ! – falei, em alto e ótimo som, para ninguém falar que eu não avisei previamente.
   – ... fez coisas que infelizmente n... – a mesa bateu com força em sua perna, fazendo-a bambear – Como você se atreve a agredir uma professora ?
   – Eu mandei NÃO FALAR DA MINHA MÃE ! – gritei, descontrolada. De relance, vi que todos me olhavam com medo. – Não fale da minha mãe! Não fale da minha mãe!
   – Eu só disse o que todos dizem. Não é culpa minha se a s...
   – NÃO FALA DA MINHA MÃE! – gritei mais alto ainda, eu não queria ouvir suas palavras.
   Me levantei e saí da sala, a cara inchada, o sangue fervendo, o corpo tomado pela ira.
   Não dei satisfação a nenhum dos outros professores, o portão da escola estava aberto, coisa rara, já que nos mantêm presos ali como criminosos.
   Fugi para as colinas, para as árvores silenciosas. Logo, o ambiente mudo me acolheu.
   Encostei numa árvore e chorei, me acabei de chorar.
   Chamei pela minha mãe, queria ela ali comigo. Mas aquilo nunca seria possível. Pois ela está morta, e eu realmente precisa superar aquilo. Mas era difícil, ao extremo.
   Após um tempo, deitei na grama e fiquei parada, olhando o céu, as nuvens. Fechei meus olhos, sentindo até mesmo a vibração do silêncio na pele.
                                                                                    …
   – Onde você está? – perguntei – Eu não quero te machucar.
   Os galhos se partiam mais a frente e segui o som. O ar era leve mas a noite estava tão fira que atravessava o fino tecido de minha camisola. Uma música começou ao tocar adiante, era uma balada toda feita ao piano, eu a conhecia mas não lembrava seu nome.
   – Espere!
   Uma mão me agarrou pelos braços e jogou-me no chão. Meus olhos provavelmente saltaram das órbitas, tamanho o meu medo.
   Havia um palhaço em minha frente. Mas não um palhaço feliz, um apalhaço qualuqer, brincalhão. Era um palhaço frio, sem sorriso e sem olhar.
   Seu rosto era pálido e no lugar dos olhos haviam dois buracos negros.
   – Sorria, doçura!
   Ele levantou uma faca de um tamanho descomunal, na altura do meu pescoço e veio sobre mim.
   – Não! Eu sei quem você é! – Eu não sabia quem era, mas o sabia ao mesmo tempo, o rosto me era me era visível, mas identificável. Eram memórias em um sonho.
                                                                                   …
   Abri os olhos, ofegante como na manhã passada. De novo o mesmo sonho. Ou seria uma lembrança de um sonho? Não sabia de mais nada, que dia era, ou mesmo se era dia, tarde ou noite. O céu estava escuro, negro como a morte, mas para mim, não importava.
   A unica certeza era de que a grama me incomodava, e eu queria minha cama.
   No caminho de volta pra casa, vi uma multidão de pessoas, pareciam todos os habitantes da cidade reunidos numa especie de comício, perto da casa do chefe de polícia. Cheguei perto e me assombrei com o que vi.
   O ônibus do Acampamento da cidade havia sido incendiado, acho. Não quis perguntar ninguém, detestava caçar assunto com aquela gente.
   A cena me trouxe visões terríveis e chorei. De pena daqueles pais que também estava ali, chorando, lamentando diante os escombros de seus filhos. O ônibus ardia em chamas, o céu brilhava, e o que antes eu achei ser foguetes, eram um visível sinal de desolação.
   Mais lembranças me afrontaram naquele instante, não só apenas a da minha perda pessoal, mas a da perda de uma especial.
   Gabriel, numa jaqueta velha, descalço, corria em direção às chamas. A angustia refletia em seus olhos verdes, brilhando mais que o fogo que lutava por espaço naquele lago colorido.
   Não suportei mais olhar para aquilo. Fui obrigada a ir embora no momento em que ele foi pego, e seus olhos, involuntariamente, se fixaram nos meus.
   Fui obrigada a sair dali. O que ele buscava eu não sei, mas a dor dele me feria, eu estava senível, eu estava em ruínas.
   Por que existir se vivemos perdendo quem amamos?
   Qual a finalidade de viver em falsas alegrias se uma hora ou outra a tristeza vai chegar e mostrar quem realmente manda ?
   Naquele dia me revelei só, em meio à dores de ambos os lados.
   Eu não queria viver ilusões. Sem mãe, sem um pai de verdade, sem amor, sem amigos, sem futuro. Prefiro morrer. A morte iria me trazer a paz, o descanso, a tão almejada esperança. Uma nova ‘’vida’’, sem querer ser irônica.
   E, acima de tudo, a morte me tiraria de Desdém. Esta maldita cidade onde tudo morre, nada cresce, nada vive.
   Cheguei em casa e arrumei meu quarto. Escrevi uma carta para meu pai que seria lida daqui a um mês, quando ele daria minha falta e já me encontraria em estado de decomposição. Vesti um jeans detonado, uma camiseta escrito ‘Let it Be’ e meu velho Converse azul. Fui ao armário da cozinha e peguei vários vidros de comprimidos e uma sacola plástica transparente. Junto, levei um copo de leite gelado.
   Já no meu quarto, liguei meu computador e selecionei minhas melhores fotos e coloquei para tocar junto a uma musica que dizia alo sobre “ Glitter no ar”
   Minha cama estava coberta com uma colcha que minha mãe havia tecido especialmente para mim. Ao lado do travesseiro estava Ted, o Sapo; o único urso de pelúcia que ganhei durante toda a minha vida.
   Dizem que na vida há muito o que se conquistar. Quem disse isso nunca esteve em Desdém.
   Dizem também que quando se bebe o leite, toma os comprimidos e embrulha a cabeça com o saquinho plástico, a morte vem de maneira simpática. Calma. Indolor. Bonita.
   Eu não queria sofrer mais, não queria sentir dor nem chorar mais do que já chorei.
   Dizem que é pela falta de ar misturada à calmaria do espírito, que faz você ver explosões coloridas, nuvens vermelhas, douradas e amarelas. Tudo diferente do preto e branco desta cidade.
   Mas se analisarmos bem, chega um tempo em que o sangue fala mais alto que nós mesmos e envolve-nos em um apertado abraço. Assim ele tem feito com Desdém. Mas não comigo. Eu não partirei pelo sangue. Partirei pelas cores.
   Deito-me, bebo o leite, engulo os comprimidos e embalo-me junto ao som da música. Seguro na mão do Ted, meu único amigo...
   Quando menos espero, vejo uma bola lilás, depois outra azulada, rosa, laranjada.
   Então, fecho os olhos.
   ‘Vadia, eu vou te matar !’
    Foi minha última lembrança antes de ver uma enorme e dolorida luz branca.
    Mas não. Ainda não foi a minha tão esperada luz no final do túnel.