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sexta-feira, 1 de março de 2013

9 - Gabriel


A lembrança ainda é fresca na memória. Jamais pude imaginar tantas pessoas envolvidas numa coisa tão repentina.
Por anos pensei sempre estar sozinho, pensei que os bosques úmidos somente a mim abrigavam, mas infelizmente, esta certeza de solidão esvaiu-se na pior hora.
– Socorro! – Aquele grito ecoava na minha mente, me assombrando me roubando de mim e me levando de volta para aqueles angustiantes momentos.
Hora ou outra, eu balançava a cabeça no intuito de espantar essa má lembrança e obrigava-me a lembrar de bons momentos. Porém estes me machucavam tanto quanto os ruins.
– Adivinha que dia é hoje – ela me pediu num dia qualquer. Tinha me dito antes que queria passar o dia comigo, e que não importava o lugar, mas queria estar comigo.
– Segunda? – Respondi com mais uma pergunta enquanto caminhávamos de mãos dadas pelas colinas que levavam aos bosques.
– Claro que não, seu bobo. – ela ria, e eu mesmo sendo o tolo da história sorria junto dela. Um vento fraco soprava, os cabelos dela voavam com vivacidade, perfeitos fios negros, chicoteando o vento. – Tenta de novo – então dizendo isso ela balançava meu braço, tão meiga, tão perfeita. Os olhos negros brilhavam com o sol fraco do fim de  tarde, eram seus olho que clareavam o dia, pois o sol opaco somente clareava o céu.
– Que tal… – eu hesitava – quinta-feira?
– Para com isso – ela riu mais alto ainda. – Você sabe muito bem que dia é hoje – ela disse chegando mais perto de mim, me dando uma deixa para a resposta certa e um beijo.
– Não – eu disse segundo antes de nossos lábios se encontrarem, logo eu os separei e completei minha resposta falsa. Sim eu sabia, mas vê-la sorrindo daquele jeito, feliz com a expectativa, me cativava tanto a ponto de eu querer prolongar aquela conversa chata aos olhos de terceiros, até o fim da minha existência. – Então hoje é…? Terça?
– Hahahah! – Ela ria tão engraçado, era como se ela falasse a gargalhada, mas soava tão natural que era bonito de se ouvir. – Para com isso.
– Então me diga – eu pedi me pondo de frente a ela, o corpo de encontro com o dela, os olhos rentes, ela me olhando e eu a olhando. – Que dia é hoje?
– Hoje? – Ela perguntava prolongando do mesmo jeito que eu fazia. – Hoje é sábado.
– Errado – eu dizia sério e risonho. – Hoje é o dia do nosso aniversário. – Então eu a beijava, e em meio ao beijo completava. – Dois meses perfeitos com você.
Enquanto lembrava-se disso, eu não sabia se devia chorar de saudade, ou sorrir de alegria. Eu não a tinha mais, porém eu vivi aquilo com ela, ela me fez feliz, ela recebeu todo o meu amor, todo o meu afeto, e eu simplesmente a perdi.
A  opção “Chorar” prevalecia.

…

Tomei cinco velas na mão, apenas de calça e sandálias, eu sai de casa pelas portas dos fundos.
O vento frio abraçou meu dorso nu, como num abraço reconfortante.
Segurei a cinco velas juntas na não direita, e com um isqueiro verde acendi todas elas. Pretendia subir toda aquelas colinas, atravessar a floresta até o ponto onde eu a perdi, e lá deixar tais velas para ela.
A grama estava úmida, devia ter chovido, eu não sabia ao certo, na verdade não sabia de nada. Eu a havia perdido há menos de três horas e a dor já me consumia.
Jamais vira aqueles cantos tão silenciosos, o vento soprava frio, as velas me aqueciam em parte, a cera quente escorria até meus dedos, mas eu não me incomodava, não era a primeira vez que eu fazia aquilo.
Pensei em pegar o celular e os fones de ouvidos no bolso da calça preta, mas o silêncio ali me era mais confortável. De fato eu só ouvia musica em momentos como aquele. Tais músicas me acalmavam, mas eu não precisava me acalmar naquele momento. Minha respiração e o som da grama sob meus pés já bastavam.
A Lua brilhava, era a primeira noite de lua nova, mas ainda assim sua luz sozinha não seria suficiente para iluminar meu caminho. O céu estava lindo, as nuvens corriam rápidas, a lua parecia se mover em direção oposta. Fazia-me lembrar das noites que passei como ela no colo, ela me perguntava se eu percebia a ilusão de óptica vinda do próprio céu, eu dizia sim, então bancava o cientista e explicava o que era. 
A grama entrava pela minha sandália e acariciava os meus pés, era única coisa que eu sentia aqui na terra, pois meu pensamento, o resto do meu corpo, voava junto dela próximo á lua.
Nossas brigas eram constantes, mas de toda nenhuma nos manteve longes por mais de 12 horas. Era como se alguém tivesse nos dados o vinho ervoso do amor, eu era Tristão, e ela Isolda, e a ideia de nos manterem separados feria mais profundo que uma espada de dois cumes.
Seus pais não sabiam sobre nós, ninguém em toda desdém. Ao menos eu pensava.
A cada passo que eu dava a dor me consumia mais.
Quando adentrei o bosque, deixei para trás o céu límpido e as colinas, meus dedos tremiam, boa parte da cera cobrira minha mão esquerda, mas isso não a impedia de tremer. Eu não sentia frio, sentia dor, uma dor que só eu sentia e que só eu sentiria. A minha dor sempre foi diferente da de todos.
Mas afinal, eu preciso da minha dor, é ela o que eu sou. O que seria de mim se jamais tivesse chorado? Jamais tivesse perdido? Ou Jamais tivesse amado? Porque amar é sofrer, amor é dor, e minha dor é o que sou. Eu sou Amor.

...

Foi difícil encontrar o local onde eu a vira pela ultima vez, mas eu sabia ao certo onde era, minha mente me obrigava a lembrar, uma pedra ao lado, uma arvore com teias de aranha ao lado, onde Bianca ficou o tempo todo chorando.
Não culpo Bianca, nem mesmo acredito que foi ela quem fez o trágico fato. Mas de certa forma não sei no que acreditar.
Quando encontrei o lugar, coloquei as velas por sobre a pedra, e ao me levantar passei os dedos pelo cabelo curto, procurando ali os longos fios que eu não possuía mais.
Eu mudei fisicamente. Devia mudar agora com essa perda?
Desci aqueles morros tão lentamente quanto subi, não pensava em nada, a não ser em não pensar.
Mas em certo ponto eu não suportei, e a visão dela veio com força para machucar meus olhos. A menção de imaginar aqueles olhos me fazia chorar, e ver aquele rosto, mesmo que em memórias, dilacerava vorazmente meu coração.
Eu não contive o grito.
– Deus! – Eu gritei com toda a minha voz, abri meus braços, e com o rosto molhado erguido para o alto na direção do céu, eu mostrei a Deus toda a minha dor. – Não entendo.
Não havia mais estrelas no céu, a lua brilhava teimosa por detrás das nuvens, e chorando, daquele jeito, quebrantado, e sem resposta, eu voltei para cima, para onde havia deixado as velas.
Passei pelas velas e as ignorei, segui enxugando as lágrimas para além das arvores, iria contornar o bosque e sair do outro lado da cidade, não suportaria o confinamento dentro de casa.
À essa hora, talvez Gabriela já tenha chegado do acampamento, Tiago estaria fazendo macarrão instantâneo na cozinha, e tudo que eu veria eram atos de amor paterno, o que eu jamais tive, tanto amor paterno, quanto outro tipo de amor, exceto com Raquel.
Gabriela só me lembraria mais ainda do meu amor por Raquel. Talvez porque fora por sua causa que nos unimos, ou porque as duas eram tão parecidas no jeito de agir, a forma com que mordiam os lábios, mesmo ela tendo 4 anos, ou ainda por conta da forma que ambas amavam se maquiar dentro do meu quarto enquanto eu entediado de olhá-las me perdia no computador lendo milhares de histórias.
Será que ela já sabe? Será que Tiago já sabe?
Dividíamos a velha casa que meus pais me deram desde que Gabriela nascera, ambos se cuidavam, eu era seu anjo da guarda, como ele me chamara na época turbulenta em que a filha nasceu, tendo ele 15 anos; e ele para mim era meu pai, tão maduro quanto.
Já podia ver a cidade lá embaixo, as luzes, as casas, os becos vazios, e as calçadas silenciosas.
A duas quadras fica o centro, há uma praça arvorejada, com bancos, e um palanque em uma ponta, uma fonte no centro, e ao redor varias lanchonetes. Pretendia ir para uma das lanchonetes, sentar e quem sabe comer alguma coisa, olhar para o tempo, ou conversar com um dos meus colegas de trabalho, os garçons que nos fins de semana trabalhavam ali comigo, no mesmo ambiente, servindo as mesmas mesas, os mesmos rostos na inútil Desdém.
Quando sai do bosque, o frio ainda me rondava, ainda estava sem camisa, mas os dedos já paravam de tremer.
Em menos de cinco minutos eu já estava parado diante da lanchonete, tinha andado com passos largos, firmes e frenéticos, sem cansar, mas sem parar.
– Oi – falei normalmente com Jessica, a garota que ficava no caixa, éramos amigos, trocavamos livros semanalmente.
– Oi – ela respondeu. – O que te traz aqui?
Me perguntei se ela já sabia do que havia acontecido. Cidade pequena, noticias voam.
– Nada em especial. – Respondi constatando que ela não sabia, seu rosto não demonstrava um pesar, nem certa pena, aquela típica dos cidadãos de Desdém.
– Está com frio? – ela perguntou percebendo como eu estava com os ombros recolhidos. Assenti com a cabeça e ela se virou e pegou uma jaqueta na cadeira atrás dela. – Toma veste isso. – Não recusei. – Ficou sabendo do acidente? – Quando ela terminou a pergunta meu coração congelou.
– Que acidente? – Falava ela de Raquel? – Quando?
– Hoje, há pouco tempo. O chefe de policia bateu o carro no ônibus do acampamento. – Meu coração definitivamente parou. Gabriela estava naquele ônibus.
Instintivamente levei minha mão ao bolso, precisava ligar urgente para Tiago, se é que era verdade sobre o acidente. Esperei alguns segundos com a mão dentro do bolso já segurando o celular, esperando que ela sorrisse e dissesse que era mentira, mas ela não o fez.
Quando abri o celular, haviam varias ligações perdidas, estava no modo silencioso, e a caixa de entrada lotada.
– Quando foi isso? – Perguntei, ela obviamente percebeu o descontrole no tom da minha voz.
– Agora há pouco, em frente a casa do chefe de policia.
Eu não esperei que ela dissesse mais nada, não falei também, não agradeci pela blusa, nem prestei satisfações, apenas corri como jamais fui capaz de correr. O celular não encaixava no formato do rosto, e eu não ouvia se chamava ou caia na caixa postal. Era agonizante.
Quando vi o estado de calamidade do local, pensei ser tarde de mais.
Os curiosos da cidade já se aglomeravam em todos os cantos, o acostamento de ambos os lados da rua estavam lotados de carros, e na esquina, um carro pegava fogo, e um ônibus também.
Corri mais ainda. No meio da multidão de curiosos eu reconhecia rostos, via o vizinho, alguns amigos da escola, mulheres chorando, e Bianca.
Quando vi que realmente tudo estava incendiado, e que se caso alguém tivesse dentro do ônibus, já haveria morrido.
A área estava fechada, fitas amarelas demarcavam o ambiente, e o caminhão de bombeiros tentava controlar as chamas com jatos de água.
Fiz caminho em meio a multidão que se aglomerava perto dos limites querendo ver os detalhes para depois passar em diante. Passei por baixo da fita amarela com linhas pretas, e corri para mais perto do ônibus. Não sabia o que me movia, o medo, ou algo maior.
Dois policiais tentaram me impedir, enquanto eu corria eles me perseguiram. Todos olhavam para mim, mas não importava, eu me motivava mais assim, com os tiras me perseguindo, e as pessoas loucas para mais um detalhe trágico no debate do dia seguinte nas portas dos bares.
Eu não podia creditar que Gabriela talvez estivesse lá dentro, meus olhos varriam todo o lugar em busca de vestígios dela, mas logo fui incapacitado, um dos policiais me agarrou pelo braço esquerdo.
Lancei o braço livre no rosto dele, provavelmente tenha quebrado, mas não sei ao certo.
Ele gritou, o outro pediu que eu parasse, eu o xinguei, e corri ainda mais.
Antes que o outro me alcançasse, me virei e bati nele também, ele ia sacando a arma, quando caiu no chão.
Mais dois policiais entraram na corrida comigo, foi então que me dei conta da tolice que eu estava cometendo, do suicídio inútil que eu estava tramando.
Porém eu não parei. Que eu morresse então, era o mínimo que eu devia fazer. 
Os outros dois policiais me pegaram, eu não relutei. Me prenderam, eu gritava, mas deixei que me levassem. 
Talvez eu já a tivesse perdido. Ambas.

Por: Fabrício Medeiros

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

6 - Dante



Abro os olhos. Demora um pouco para minha vista desembaçar. Olho paro o lado, me foco no relógio digital em cima da cômoda. Marca 10:37. Só percebo que é de manhã por conta de alguns finos raios de luz que escapam por entre os vãos da janela.
Eu não tinha por quê me preocupar com a hora, naquele ano eu não iria à escola. Abandonei os estudos porque não podia suportar aqueles olhares de pena que todos me lançavam todos os dias. Aquilo me irritava. Eu não precisava de pena.
O pequeno tamanho da cidade colaborava para que todos soubessem da vida de todos. A morte dos meus pais se espalhou rápido, e com esperança de que pudessem descobrir algo mais para falarem, todos vinham me cumprimentar.
Eu me sentei, pude ouvir alguns pássaros cantando e um carro ou outro passando na rua. Dentro de casa não havia barulho algum. Eu estava sozinho, Jorge saia cedo para trabalhar. Desde que nossos pais morreram ele também deixou de estudar, tinha que sustentar a casa agora.
Levantei e fui andando meio arrastando para o banheiro. Quando olhei no espelho quase não me reconheci. Estava muito mais magro do que de costume, o que evidenciava minhas mandíbulas  quadradas. Eu tinha olheiras fundas, desde o acidente nunca mais consegui dormir com antes, não me lembro de uma noite sequer que eu não tinha tido pesadelos. Meus cabelos, que eu sempre deixei bem cuidado com um corte desfiado, bem aparado com a frente um pouco maior, agora estava com um aspecto horrível. Sem brilho e pesado, já havia crescido bastante e a franja cobria meus olhos, o que me irritava muito. 
Abri a gaveta e peguei uma tesoura, cortei meu cabelo de forma toda irregular, até que parasse de atrapalhar minha visão. Ficou bem melhor do que antes, mas torto. Era só mais um motivo para eu não sair de casa, e eu não me importava com isso.
Fiquei olhando meus olhos fixamente por um bom tempo. Eles eram escuros, e relativamente pequenos em relação ao restante do meu rosto, e me lembram dos olhos da minha mãe. Todos diziam que eram muito parecidos. Exceto, é claro, que os dela eram cheios de ternura e bondade, o meu olhar era duro, frio e metralhador.
Senti meu rosto esquentar, minha vista ficou borrada, senti uma lágrima descer. Sequei rapidamente. Não me permito chorar, minha mãe dizia que não devíamos chorar pelos que partiram porque provavelmente eles estavam melhor que antes. Disso eu tenho certeza, onde quer que meus pais estejam, era melhor que a cidade de Desdém. 
 ...
O restante do dia foi como todos os outros anteriores. Eu comi qualquer coisa, fiquei um bom tempo deitado vegetando, perdido em pensamentos.
Não tenho ideia de que horas eram, mas penso ter ouvido gritos um pouco longe. Por um segundo pensei em ver o que tinha acontecido, mas a ideia de encontrar outras pessoas me fez desistir.
Poucos minutos depois Jorge chegou e foi direto para o banheiro. Nem me cumprimentou, mas eu já estava acostumado com isso. Jorge não era do tipo mais carinhoso, mas depois que nossos pais morreram, ele me ignora completamente.
Fui atrás dele.
– Jorge?, eu disse através da porta.
– O que você quer? – ele respondeu com um tom áspero
– Eu ouvi gritos há uns minutos atrás, você sabe o que aconteceu? – esperei e ele não respondeu. – Jorge? Você sabe, essa cidade é muito parada, pode ter acontecido algo.
Ouvi o barulho do chuveiro ligando, a pressão da água estava bem forte, ele deve ter feito isso para não me ouvir mais.
 ...
Também, porque eu deveria me preocupar, o que tivesse acontecido não faria diferença. Jorge era a minha única família, e ele estava em casa agora.
Fui para o quarto, não tinha mais nada para fazer. Fiquei um bom tempo deitado na minha cama e olhando para o teto. Ouvi o barulho de Jorge saindo do banheiro, pensei em ir falar com ele, mas achei melhor não.
Jorge passou em frente a porta do meu quarto, parou e disse:
– Deixei um dinheiro para você comer amanhã, está dentro do armário.
– Jorge, espera! – foi inútil, ele me ignorou novamente.
Logo depois ouvi Jorge saindo. Que estranho, ele não costumava sair tarde. Olhei para o relógio do lado da minha cama, faltavam poucos minutos para as 22 horas.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

1 - Gabriel


Retrato de mim mesmo: Um menino de cabelo recém cortado saindo da barbearia que fica ao lado da papelaria. Calça jeans, camiseta que compõe o uniforme do ultimo ano escolar, uma camisa xadrez de algodão, verde e azul, ainda com o perfume que usei pela manhã, jogada por sobre o tosco uniforme azul e sem graça. O celular está na mão, junto com o boné que sempre usava antes de cortar drasticamente o cabelo.
  Ando pelas ruas, as pessoas não me olham como antes. É como se apenas por eu ter mudado o corte de cabelo, eu já não fosse dali. Em parte era o que eu queria, mas de outra forma não. 
  Eu era como um estranho, as pessoas não olhavam para mim, aliás, minha vida ali – na mente deles – ainda viria a se concretizar, então eles me ignoravam.
  O cheiro em minha roupa estava me sufocando, o perfume fresco que me parecia tão bom durante a manhã fria, agora era sufocante durante a tarde ensolarada. Os fios de cabelos ainda estavam em mim,  nada que um banho não resolvesse. 
   Mas naquele dia eu tinha outros planos...
  Tinha assuntos pendentes na biblioteca publica da cidade. Eu amava livros – apesar de não haver livrarias na idiota cidade de Desdém –, porém meus assuntos na biblioteca não tinham em nada relação com os livros. Envolviam uma pessoa, e muitos romances e clássicos empoeirados. Tenho mais histórias entre aquelas prateleiras, que todos os livros ali guardados.
  Quando cheguei diante da pequena porta de madeira que dava entrada á pequena biblioteca, vi a bicicleta dela encostada-se à calçada, distinguível principalmente pela cestinha rosa.
  Adentrei com um cumprimento mudo para a bibliotecária de  cabelos curtos, ela meio que se assustou com meu cabelo, mas logo me reconheceu e se conteve para não responder.
  Passei direto, indo pra próxima sala, era onde ficavam os livros velhos, a sala onde ninguém frequentava  Havia apenas prateleiras, dispostas como numa trilha, preenchendo todo o pequeno espaço da sala.
  – Cinco patinhos voltaram do passeio – eu disse chegando detrás de uma das prateleiras e removendo dois livros ao ponto de ver o outro lado da prateleira. Vi mais dois livros saindo e um rosto tomando forma naquele buraco.
   Logo ela deu a volta e se jogou em cima de mim, e com os lábio próximos de mais dos meus sussurrou.
  – Devíamos trocar esse código.
  Então ela lançou-me um beijo caloroso, daqueles que nem mesmo te deixam respirar. Sinceramente eu não gostava de beijar assim, era estranho, sem sentimento, ela controlava.
  Se me perguntassem se eu a amava, não hesitaria em responder, mas o que mais me feria naquilo, era que só ficávamos escondidos, beijávamos vorazmente, ela não permitia que eu a sentisse, que eu a acariciasse.
  – Espere – eu disse descolando meus lábios dos dela. Continuei com o rosto próximo, as testas juntas, os narizes tocando, mas sem partir para os lábios dela. – Eu… eu queria… Bem, você sabe. – Mudei subitamente meu semblante. – Não está…  – minha voz falhava por nervosismo, sabia eu que ela podia simplesmente me virar a cara e partir, ela não gostava de mim a ponto de dizer eu te amo, mas o problema é que eu sim. – Não está dando certo assim. Vivemos assim escondidos pelos cantos, na biblioteca, na escola, nos mercados.
  – De novo? – ela perguntou se afastando, e olhando a esmo para uma das prateleiras. Puxei ela de volta pela mão.
  – Eu quero que seja diferente, não entende? – ela apenas me olhava nos olhos. Seus cabelos brilhavam com a luz do sol que entrava pela janela atrás dela, seus olhos também, aqueles maravilhosos olhos azuis. Então de repente ela parou de me fitar e começou a correr com os dedos por sobre os livros mais empoeirados de todas as prateleiras. Hora ou outra ela retirava o dedo e via o quanto de poeira havia ali.
   –Você sabe que não dá – disse ela por fim. – Conhece meus pais, eles não deixariam nem mesmo…
  – Eles não deixariam – interrompi perguntando fazendo-a a voltar a atenção à mim, – ou você não quer?
   – Você não entende?
   – Entendo sim, mas não é nada que eu não possa mudar. Eu posso falar com eles, eu quero.
  – Mas não pode. – ela parecia ter se chateado, voltou para atrás da prateleira que estava quando cheguei, e voltou pegou no mesmo instante sua mochila azul e a pôs nas costas.
   – Onde você vai?  – perguntei tentando segurá-la, mas ela se debateu de tal forma que a deixei ir.

                                                                     …

   O que eu estava fazendo? Ficar com ela não estava ajudando em nada. 
  Em casa eu meditei comigo mesmo, tentei fazer algo, mas o tempo não passava, parecia que só quando eu pensava nela é que os ponteiros do relógio giravam.
  Em um momento de apneia proposital, pensava em tudo que me rodava. Ela agora vivia em dois lugares: em Desdém, e em meu frágil pensamento.
  Nos fundos da minha casa, no quintal, creio que na trilha que  levava pro bosque, pras colinas, onde eu ia com ela nos dias chatos e rotineiros, eu ouvi gritos de socorro. Não eram dela, aliás era ela a  primeira que veio em meu pensamento, e poderia eu distinguir há milhas de distancia o doce som da sua voz.
   Era de outra pessoa.
  Cheguei da janela do quarto para ver se entendia algo, e constatar se ouvia mesmo gritos de socorro, ou se era apenas uma alucinação da minha mente fraca.
  – Socorro! – o grito soou mais uma vez, tão alto quanto antes.
  Desci as escadas correndo, estava sozinho em casa, a porta dos fundos aberta, então corri o mais rápido que pude.
  Segui a pequena trilha até a cerca, pulei-a e quando estava do outro lado, vi descendo as colinas, vindo de onde começava o bosque, Bianca, correndo, histérica, chorando com as mãos ensanguentadas.
                  


      Por: Fabrício Medeiros

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Prólogo - Uma cidade, péssimas lembranças.



  Uma noite.
  É tudo que vejo agora.
  As nuvens voam alto,  o suficiente para eu me sentir sozinho. A lua nova joga seu manto dourado por sobre as  pontas uniformes das nuvens, o que torna a noite mais perfeita.
  Este céu me trás lembranças importunas, creio que não só a mim, também á muitos que eu amo, que conheci, e que perdi. 
  As tardes de sol, as ruas desta pequena cidade mal projetada...
  Desdém, não há nada que descreva melhor esta parte do inferno. 
  Há quem ame esta cidade imunda, mas eu, jamais tive vontade de voltar lá. As calçadas me causam nojo, as pontes, náuseas, e as pessoas, medo.
  Meus planos simplórios pareciam gigantescos arranha-céus perto daquelas pessoas que nada fazem além de nos subjugar. Desistir, é algo que todos cogitamos em certo ponto.
  Se hoje estou longe, agradeço aos céus, e se agora estou vivo, só Deus sabe o por quê.
  Em  cada cidade pacata há um problema, há pessoas boas, e pessoas ruins.  Há felicidade, e quem se incomode com ela, há quem a destrói por prazer.
  A pior parte, é que pessoas que eu realmente gostava foram sacrificadas por isso, pessoas que eu dava valor. Correndo o risco de ser clichê, eu vi pessoas que eu amava morrer, e quem as matou, infelizmente, me chamava de irmão, de amigo, de família.
  Talvez numa noite como a de hoje, naquele lugar horrendo, nos bosques ao redor da cidade, ou mesmo em praça publica. A maldade não tinha limites.
  Os olhos dele brilhavam como fogo quando me viam, libertava sua ira como chamas.
  Aqueles mesmo olhos me olharam outro dia, como se fossem copias perfeitas da lua, traziam conforto, paz, confiança – a única coisa que sinto falta.
  Hoje os tempos são outros, mas ainda tenho guardado, no fundo de uma caixa ornada com veludo preto, todas as confissões, todos os desabafos, daqueles que se foram, e daqueles que lutam para ficarem.
  Chorar por eles não muda mais nada, mas é um bem que me faz. Chorar alivia minha alma, me tira o peso da certeza de que eu podia ter mudado algo.



Por: Fabrício Medeiros